Em discurso, Lula diz que vai cumprir mandado de prisão e prega a luta

Num discurso inflamado, com quase uma hora de duração, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva atacou o juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato, afirmou que iria cumprir o mandado de prisão e convocou seus apoiadores a darem continuidade à sua luta política, enquanto ele estiver preso. “Vou cumprir o mandado e vocês vão se transformar em ‘Lulas’, e vão andar por esse país. Eles têm que saber que a morte de um combatente não para uma revolução. Vamos fazer a regulação de meios de comunicação para o povo não ser vítima de mentiras”, falou neste sábado (7) para centenas de apoiadores em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo (SP). Moro determinou, na quinta-feira (5), a prisão de Lula após a condenação a 12 anos e um mês de prisão por corrução e lavagem de dinheiro, no caso do triplex do Guarujá.

Antes do discurso, num palanque montado em cima de um carro de som, foi realizada uma missa ecumênica em memória da ex-primeira dama Marisa Letícia, que faria 68 anos neste sábado. Após a fala de várias lideranças políticas, Lula pegou o microfone para iniciar seu esperado discurso. Com a voz muito rouca, mas com energia, ele relembrou seu tempo de sindicalista, agradeceu aos militantes e afirmou que sairia “de cabeça erguida”, porque sabia que iria voltar “com o peito estufado” porque iria provar sua inocência.

No início de sua fala, Lula citou nominalmente os vários sindicalistas e políticos presentes, como a ex-presidente Dilma Rousseff. Ele deu destaque especial aos pré-candidatos à presidência da República Manuela D’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOl): “É motivo de orgulho pertencer a uma geração que vê nascer dois jovens disputando o direito de ser presidente. Gente nova se dispondo a enfrentar a negação da política, dizendo que querem ser presidentes para mudar a história do país.”

Lula também fez um agradecimento especial a Dilma Rousseff: “Provavelmente a mais injustiçada das mulheres que um dia ousaram fazer política nesse país, acusada de não saber conversar, de não saber fazer politica. Quero ser testemunha: Dilma foi a pessoa que me deu a tranquilidade para fazer quase tudo que eu consegui fazer na presidência, pela confiança, seriedade, qualidade e competência técnica. Eu não teria sido o que fui se não fosse a companheira Dilma. Repartirei o meu sucesso como presidente com Vossa Excelência, independentemente do que aconteça”, disse, se dirigindo a ela.

Ao falar de seu passado como sindicalista, Lula destacou que através de lutas e greves, criou um partido e virou presidente. “Na minha consciência, parte das conquistas da democracia brasileira a gente deve a este sindicato dos metalúrgicos. Foi a minha escola: aprendi sociologia, economia, física, química e aprendi a fazer muita política, porque nesse tempo as fábricas tinham 140 mil professores que me ensinavam como fazer as coisas. Vivi meus melhores momentos políticos nesse sindicato. Nunca esqueci minha matrícula: 25986, setembro de 1968.”

Lula citou a greve de 1979, quando afirmou ter conseguido com o patronato um “bom acordo”. “Levei pra assembleia. Começamos a botar o acordo em votação e 100 mil pessoas não aceitaram. A peãozada tava radicalizada  e queria 83% de aumento ou nada. Passamos um ano sendo chamado de pelegos pelos trabalhadores”, contou, prosseguindo: “Nós levamos um ano pra recuperar nosso prestigio na categoria. Fiquei pensando com ar de vingança: ‘os trabalhadores dizem que podem fazer 400 dias de greve, pois vou testa-los’. Em 1980,  fizemos a maior greve já feita. Fui preso e trabalhadores começaram a furar a greve. Diziam que eu tinha que acabar com a greve, e eu dizia que não: ‘Os trabalhadores vão decidir por conta própria’, eu dizia. Ninguém aguentou porque houve pressão. Mas na derrota a gente ganhou muito mais sem ganhar economicamente. Não é dinheiro que revolve problema numa greve. É o que está embutido de tese política numa greve.”

Lula relatou o fato para fazer uma associação com o momento presente: “Estamos quase que na mesma situação. Estou sendo processado e tenho dito claramente que sou o único ser humano que sou processado por um apartamento que não é meu. A Polícia Federal mentiu, o Ministério Público mentiu. Pensei que o Moro ia resolver, e ele mentiu e me condenou. Por isso sou indignado, porque fiz muita coisa em 72 anos de vida, e não os perdoo por terem passado para a sociedade que eu sou ladrão. Deram a primazia para os bandidos fazerem pixulecos, chamarem gente de petralha, criarem um clima de guerra negando a política nesse país. Mas nenhum deles dorme com a consciência tranquila que eu durmo.”

Apesar das críticas, Lula reforçou que não estava “acima da Justiça”. “Acredito numa justiça justa, que julga o processo nos autos do processo, na prova concreta. O que não posso admitir é procurador que fez power point e foi para a TV dizer que o PT é uma organização criminosa que nasceu para roubar o Brasil. E que o Lula é o chefe dessa organização, por isso, não precisa de provas. Tem a convicção. Que ele guarde a convicção dele para os comparsas dele, os asseclas dele e não para mim”, disse, se referindo ao procurador Deltan Dallagnol.

“Certamente, um ladrão não estaria exigindo prova, e sim de rabo preso. Tenho mais de 70 horas de Jornal Nacional me triturando, mais de 70 capas de revista me atacando, TV me atacando, e o que eles não se dão conta é que, quanto mais me atacam, mais cresce minha relação com o povo brasileiro”, prosseguiu.

Lula lembrou do seu tempo como presidente: “Sonhei que era possível governar O país envolvendo milhões de pobres na economia, nas universidades, sonhei que era possível um metalúrgico sem diploma cuidar mais de educação do que os diplomados, sonhei que era possível diminuir a mortalidade infantil, que era possível pegar estudante da periferia e colocar nas melhores universidades para que a gente não tenha juiz e procurador só da elite. O crime que cometi, e que eles não querem que eu cometa mais, foi o crime de colocar pobre e negro na universidade, poder comprar carro, andar de avião, ter casa… Se esse é o crime que cometi, vou continuar sendo criminoso nesse país porque vou fazer muito mais.”

O ex-presidente também falou sobre o impacto das acusações sobre sua família. “Não é fácil o que sofrem meus filhos e o que sofreu Marisa. Anteciparam a morte dela com a sacanagem que a imprensa e o MP fizeram.”

Apesar da posição de ataque, Lula frisou que não é contra a Operação Lava Jato. “Se pegar bandido, tem que prender. Todos nós queremos isso. Quero que continue prendendo rico. Mas você não pode fazer julgamento subordinado à imprensa, porque isso destrói as pessoas, e depois o juiz vai julgar e dizer que não pode ir contra a opinião pública. Quem quiser votar com base em opinião pública, que largue a toga e vai ser candidato. Toga é emprego vitalício. Tem que votar com base nos autos do processo. Aliás, ministro não deveria dar declaração para votar. Nos Estados Unidos, ninguém sabe em quem cada ministro votou.”

Ele defendeu também o Ministério Público como instituição. “Indiquei quatro procuradores e dizia que a instituição tem que ser forte. O Ministério Público é uma instituição muito forte. Mas meninos que entram novos, por meio de concurso que pai pode pagar, eles precisam conhecer a vida, a política. Eles têm uma coisa chamada responsabilidade.”

Contudo, em seguida o ex-presidente voltou a mirar no juiz Sérgio Moro e na imprensa: “Falei com Moro que ele não tinha condições de meu absolver porque a Globo está exigindo minha condenação. O TRF4, Moro e a Globo têm um sonho. O golpe não termina com Dilma. Só acaba quando o Lula não puder ser candidato em 2018. Não querem que eu participe, não querem o Lula de volta porque pobre não pode ter direito, não pode andar de avião, ir para a universidade”, disse prosseguindo: “Fico imaginando a tesão da Veja colocando minha foto preso na capa, da Globo colocando minha foto preso. Ele vão ter orgasmos múltiplos. Eles decretaram minha prisão. Eu vou atender ao mandado deles, porque quero fazer a transferência de responsabilidade. Eles acham que tudo o que acontece é por minha causa. Vão descobrir que o problema desse país não se chama Lula, chama vocês, a consciência do povo, o PT, o MTST. Eles sabem que não adianta tentar evitar que eu ande por esse país porque tem milhões de ‘boulos’, ‘manuelas, ‘dilmas’ que andam. Minhas ideias já estão no ar. Quando eu parar de sonhar, eu sonharei pela cabeça de vocês. Não adianta achar que tudo vai parar quando o Lula tiver infarte. Meu coração vai bater pelo coração de vocês. Não sou mais ser humano, sou uma ideia misturada com ideia de vocês.”.

Lula conclamou seus apoiadores a prosseguir na militância. “Vou cumprir o mandado de prisão e vocês vão se transformar em ‘Lulas’, e vão andar por esse país todos os dias. Eles têm de saber que a morte de um combatente não para uma revolução. Vamos fazer a regulação de meios de comunicação para o povo não ser vítima da mentira. Vocês vão poder queimar os pneus que tanto querem. A história vai provar que quem cometeu crime foi o delegado, o juiz que me julgou e o Ministério Público que foi leviano.”

No fim do discurso, o presidente aproveitou para agradecer aos militantes. “Não tenho como pagar a gratidão e o carinho de vocês por mim. Sairei dessa maior, mais forte, mais verdadeiro e inocente. Eles é que cometeram crime. Vou de cabeça erguida e vou sair de peito estufado porque vou provar minha inocência.”

Jornal do Brasil

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