E-book ‘Isolamento Social – Relatos de Mulheres Jornalistas’ é lançado na Paraíba

Após um ano do início da pandemia do novo coronavírus que afetou a população mundial, infectando e matando mais de 2,8 milhões de pessoas no mundo, o e-book “Isolamento Social – Relatos de Mulheres Jornalistas” é lançado como forma de registro histórico das impressões, sentimentos de medo, angústias e ressignificações de mulheres jornalistas paraibanas ou radicadas na Paraíba nos primeiros meses de distanciamento social.

O livro, que conta com o prefácio da professora de Comunicação da UFPB e feminista, Glória Rabay, foi organizado pelas jornalistas Kiára Fialho, Sandra Moura, Sônia Lima e Zezé Béchade. Participam como autoras dos relatos 64 jornalistas, que, no momento da escrita, se encontravam em isolamento social.

“Foi um trabalho que nos aliviou os momentos de angústia no início da pandemia e nos fez refletir sobre a situação de nós mulheres e jornalistas nesse período tão difícil para a humanidade e para os profissionais da Comunicação. Além disso, nos fez produzir um material que fica como registro histórico desses tempos caóticos da pandemia do coronavírus”, frisou a jornalista Zezé Béchade.

Para conhecer as histórias marcadas por essas mulheres jornalistas logo no início da pandemia do SARS-CoV-2, o e-book será hospedado no blog “Relatos da Pandemia”, que será lançado na próxima semana e poderá ser baixado para leitura gratuitamente.

A jornalista Glaudenice Nunes, do portal ParlamentoPB, é uma das colaboradoras do e-book. Para ela, a participação no projeto é “uma forma de mostrar para as gerações futuras – espero que possam ler -, o que estamos vivenciando agora, que respeitem a ciência, que estruturem melhor nossos sistema de saúde, que cuidem mais da natureza, do próximo e que, principalmente, vejam a importância de escolher bem nossos gestores. A forma como a pandemia foi tratada pelo governo federal nos fez chegar nesse ponto, com mais de 330 mil mortos. Sobre o início da pandemia, confesso que foi bem mais fácil do que agora. Tive medo, mas tomei e continuo tomando os cuidados necessários. Estou mais assustada agora, triste com tantas perdas e a inércia de Bolsonaro. O problema é que agora está fora de controle. A sensação é que só estamos esperando quem vai ser o próximo a ser contaminado. Perdi recentemente pessoas que conhecia de perto e vejo a luta de pessoas queridas nos hospitais lutando pela vida.”

Glaudenice espera que “essa Páscoa, mais uma que estamos passando em plena pandemia, que essa Páscoa ressuscite nossa fé, nossa coragem, generosidade, empatia e tudo o mais que andamos esquecendo.”

O texto abaixo (logo após a capa do e-book) é a apresentação do e-book. Ele traz a história da criação de um grupo de mulheres no WhatsApp, que já se reuniam em um restaurante, o qual deu origem ao e-book.

Confira o texto de apresentação do e-book, logo abaixo:

Apresentação

Naquela quinta-feira, 12 de julho de 2018, chegamos ao Tramonto Wine Bar, no bairro de Manaíra, em João Pessoa, pouco depois das 21h30. Era a primeira vez que nós visitávamos o local. Vimos no Facebook que essa noite prometia música de alta qualidade, executada ao piano. Encontramo-nos na porta do bar e, ao entrarmos, de cara, avistamos uma única mesa vaga, próxima ao balcão, com boa visão para os artistas, um pianista e uma cantora, que já se apresentavam.

Na pauta da noite, não cabiam lembranças desagradáveis, tristes, enfadonhas. Combinamos que só valeria o que fosse alto astral. Antes do prato principal, o pedido de queijo brie com damasco e vinho para celebrar a vida, a amizade, o empoderamento feminino, a solidariedade, o direito de ir e vir, sem sermos importunadas.

Na volta para casa, de Uber, o combinado era que quem chegasse primeiro deveria ligar para as outras, para certificar-se se haviam chegado bem. E a noite terminou como começou: feliz! Voltamos ao Tramonto menos de um mês depois, dessa vez para celebrar o aniversário de uma de nós. A noite feliz se repetiu.

Após o segundo encontro, criamos, em agosto de 2018, no whatsapp, um grupo com o nome “As Tramontinas”, aproveitando o nome do bar (numa referência ao espaço lúdico) e a marca de panelas (numa remissão ao espaço doméstico). Para nós, a brincadeira era que o nome do grupo, de um lado, representaria o direito de nós mulheres nos divertirmos com as amigas; de outro, era uma alusão reversa da representação costumeiramente a nós reservadas – a do espaço doméstico: lavar louça.

Da brincadeira, o grupo foi se firmando no ambiente virtual para compartilhar, como na sua formação de origem, boas notícias, funcionando como up grade na autoestima feminina, na sororidade, no compartilhamento de conversas amenas, humoradas, mas, sobretudo, respeitosas com as mulheres.

Pouco mais de um ano e meio da criação espontânea do grupo, veio o estado de alarme no mundo da Covid-19. Estávamos em 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia causada pelo coronavírus, chamado de Sars-Cov-2. Pelo whatsapp, passamos a nos aconselhar sobre os cuidados na prevenção contra o vírus. Com mais frequência, passamos a relatar, ali, o nosso dia a dia, sobre as tarefas domésticas, o trabalho home office, o cuidado com a família, as idas ao supermercado etc.

Numa dessas conversas, tivemos a ideia de contar, num e-book, o nosso cotidiano, a partir do que registrávamos por mensagens no whatsapp, sobre esses dias de assombro da pandemia. Começamos a discutir a produção e edição da obra, quando nos veio a ideia de ampliar os relatos para outras jornalistas que também vivenciavam o distanciamento social. A partir daí, passamos, semanalmente, a nos encontrar na plataforma Zoom, discutindo o e-book, sempre em conversas harmoniosas, prazerosas e com muita leveza.

Para elaborar a lista das mulheres jornalistas, fizemos o levantamento nas redes sociais digitais, Facebook e Instagram. Também, houve uma sondagem em alguns grupos de jornalistas espalhados pelo mundo digital. O critério era ser mulher, jornalista e estar cumprindo o distanciamento social, preferencialmente na Paraíba. Não havia exigência em relação à quantidade de dias, se quinze, vinte, trinta… Importava se vivenciado o distanciamento nos meses iniciais à decretação pela OMS do estado de alerta da Covid- 19.

Por esse método, chegamos ao levantamento de 64 mulheres jornalistas que fazem parte deste e-book, com suas narrativas sobre vários aspectos do período de confinamento, tais como, momentos de medo, angústia, insegurança, tensão, solidão, insônia, fragilidade, exaustão, morte.

Os depoimentos que aqui seguem registram o distanciamento social vivenciado nas cidades de João Pessoa, Campina Grande, Conde, Cajazeiras, Patos e Sousa, por essas 64 mulheres paraibanas ou radicadas na Paraíba. Três jornalistas que atuaram na Paraíba, mas que vivenciaram o confinamento fora do país, foram convidadas. Duas delas vivem, temporariamente, em Portugal, e a terceira está radicada na Grécia.

Os textos compõem aquilo que o historiador holandês Jacques Presser nomearia de “egodocumentos”, em que as autoras escrevem sobre seus próprios sentimentos, pensamentos, impressões e ações diante do assombro, no caso aqui, da pandemia da Covid-19.

Na definição de Presser, para o termo “egodocumentos”, trata-se de textos escritos, em que o eu, o(a) escritor(a) escrevente, está continuamente presente no texto como sujeito que escreve e descreve a matéria. No caso do e-book que organizamos, são textos escritos nos quais essas mulheres se apoiam em seus arquivos pessoais, intimidades e nas suas próprias motivações para narrarem a sua vida. A percepção individual, subjetiva, dessas jornalistas marca os relatos, numa espécie de “ego-percepção”, como atribuiria Schulze, outro representante da historiografia.

A todo momento, essas mulheres jornalistas falam de si mesmas, dos seus sentimentos, dão a sua visão sobre um acontecimento que parou literalmente o mundo. Nesse aspecto, o e-book valoriza esse olhar feminino sobre o coronavírus, insere essas mulheres jornalistas nas fontes históricas que ampliam ou completam a base de estudos que registram a pandemia da Covid-19 em 2020.

Os relatos são agrupados em três momentos – medo, esgotamento e ressignificação: o primeiro, marcado pelas ansiedades, assombros, mal-estares, incertezas, permanentes estados de alerta; o segundo, pela exaustão psicológica, excesso de deveres, de trabalho, poucas horas de sono, pensamentos intrusivos, inquietude em muitas situações; o terceiro ressignifica o caos: o que é motivo de pânico se transforma num posicionamento ativo de esperança, de otimismo, de lições para o mundo pós- coronavírus.

Cabe ressaltar que, embora sistematizadas em três blocos, podemos perceber a presença das três características (medo, esgotamento e ressignificação) em todos os textos, uma vez que todos esses elementos, de alguma forma, estão presentes nos relatos, uns com menos, outros com mais intensidade.

A obra foi construída coletivamente por uma pluralidade de mulheres jornalistas, mães, avós, pesquisadoras, profissionais que atuam nas redações, nas universidades, nas `~aassessorias de imprensa, dirigentes partidárias e sindicais, jornalistas (umas, mães; outras, não), mulheres brancas, negras, de variadas faixas geracionais, que moram sozinhas, que vivem acompanhadas etc.

Os depoimentos, escritos entre os meses de maio a agosto de 2020, são livres; a escrita e o estilo também. Nessa obra, o(a) leitor(a) vai acompanhar a história de uma jornalista que teve filho em hospital em meio à pandemia, outras que enfrentaram a dor da perda de familiares (mãe, pai, irmãos, amigos), para o coronavírus e para outras doenças. São mulheres que tiveram a Covid-19 e sobreviveram, inclusive duas delas são organizadoras do e-book. O(A) leitor(a) vai conhecer o cotidiano de quem teve que, em meio a esse caos, lidar com a ansiedade pela espera de tratamento de câncer.

Mulheres que foram ao passado, a tempos longínquos, para trazerem memórias e contá-las aos(às) leitores(as). São profissionais que optaram pela reflexão sobre a sua práxis jornalística na cobertura do dia a dia da pandemia.

Mulheres que deram aos seus relatos um tom político. Jornalistas que desabafaram sobre a sobrecarga de atividades, que tiveram de se adaptar às novas tecnologias e aos possíveis impactos do vírus na concepção contemporânea de trabalho home office, que se desdobraram nos cuidados com a saúde dos pais e com filhos em aulas remotas. Mas, sobretudo, são mulheres que se ergueram, que sobreviveram, que transformaram as suas rotinas, com a ressignificação da suas vidas, seja pela leitura, fé, ciência, tecnologia, seja pelo conforto espiritual, autoconhecimento, religião, filosofia, arte, memória afetiva. Enfim, de uma forma ou de outra, buscaram alívio para esses dias incertos, nostálgicos, estranhos, dessa pandemia da Covid-19 que já é considerada a peste do século XXI.

Agradecemos, de forma especial, a todas as mulheres jornalistas que escreveram os relatos. Os agradecimentos são extensivos à professora Glória Rabay, pelo prefácio, ao professor David Fernandes, pela elaboração da capa, e ao professor Francelino Soares, pela revisão dos textos.

Esta obra Isolamento social: relatos de mulheres jornalistas fará você conhecer essas profissionais além da sua vida real, também nas suas subjetividades.

Mergulhe nessas histórias humanizadas! Você vai se encontrar nelas, se não você, alguém que você conhece.

João Pessoa (PB), agosto de 2020

 

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