Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


 ‘Dois estranhos’ e ‘Monstro’, curta e longa, expõem facetas nefastas do racismo

Os dois filmes tratam de pesadelos, um na vida real (‘Monstro’) e outro numa espécie de sonho ruim (‘Dois estranhos’). Ambos surgem num momento crucial de exacerbação de ódio por parte da sociedade estadunidense, quando o líder maior da nação se torna porta-voz do ódio e do preconceito de grupos racistas, xenófobos, misóginos, homofóbicos e de toda espécie de fobia que torna doente uma sociedade. ´Dois estranhos’ (EUA, 2020, 32min), dirigido por Travon Free e Martin Desmond Roe, e ‘Monstro’ (EUA, 2018, 1h39min), dirigido por Anthony Mandler, estão disponíveis na Netflix.

Indicado ao Oscar este ano, ‘Dois estranhos’ (Two distant strangers) se passa em Nova York, numa manhã em que Carter James (Joey Badass), jovem afrodescendente, que trabalha como design gráfico, acorda ao lado da bela negra Perri (Zaria Simone) depois do primeiro encontro entre os dois. O apartamento é bonito, amplo e bem localizado.  Feliz, Carter James não aceita de Perri o convite para o café, pois seu cachorro Jeter o espera. Ele chega à rua e é abordado por Merk (Andrew Howard), um policial branco que insiste em inquirir e revistar Carter. A partir daí, começa o pesadelo do jovem negro que vai se repetir com pequenas variações, mas, invariavelmente, com desfecho fatal.

O curta-metragem de Travon Free, comediante norte-americano e também autor do roteiuro, e de Martin Desmond Roe, cineasta inglês,  surgiu a partir do impacto do assassinato de George Floyd e sua repercussão mundial em maio de 2020. Os dois estavam a todo vapor na produção de uma comédia musical, cujo projeto foi interrompido para dar vez a este curta pela urgência do tema. Lá e aqui, o assédio e assassinato da população negra é rotina. E a estatística só aumenta. Não é coincidência que a presença de líderes fascistas a exemplo Trump, até ano passado como presidente, e Bolsonaro, ainda fazendo estragos por aqui, tenha sua cota-parte nessa mórbida estatística. 

Na primeira abordagem policial, Carter sai do prédio, trata os transeuntes de forma gentil e acende um cigarro, por acidente deixar cair um maço de dinheiro de sua mochila. O policial desconfia do cigarro que Carter fuma e da quantidade de dinheiro que ele porta. Carter dá respostas seguras e incisivas ao policial e reage à sua abordagem violenta. É imobilizado e asfixiado gritando “não posso respirar”. No pesadelo “mais doido e real” em que Carter James se encontra aprisionado em círculos, ele acorda e tudo recomeça. A encenação e enquadramentos reforçam esse “loop” da ação (“déjà vu”) que vai minando a autoestima de Carter que, por mais cuidados que tome, está condenado ao assédio e ao assassinato. Uma curiosidade: o ator Joey Badass é rapper e assina Joey Bada$$.

 ‘Monstro’ (Monster) de Anthony Mandler, por seu turno, é baseado no livro homônimo de Walter Dean Myers de 1999.  O filme teve estreia mundial em 2018 no Festival Sundance de Cinema e lançado no Brasil na Netflix este ano. Como ‘Dois estranhos’, tem como protagonista um jovem negro.  Aspirante a cineasta, Steve Harmon (Kelvin Harrison Jr.), 17 anos, se envolve, sem saber, num assalto que redunda na morte de um comerciante e, como costuma acontecer numa sociedade com forte herança escravagista, é condenado por antecipação pela justiça. 

 “Monstros não choram no escuro. Era o que eu deveria ter dito a ele quando nos olhou e nos chamou de monstros.” Assim começa a narrativa de Steve em primeira pessoa, ao ser fichado e encarcerado. Mandler estrutura seu enredo lançando mão da técnica de flashback alternando amiúde passado e presente com uma narrativa carregada de subjetividade já que conduzida sob o ponto de vista do aturdido Steve. Ele narra sua trágica jornada, metalinguisticamente, como um roteiro de um filme, localizando cenas e descrevendo a ação que acontece nelas.

A defensora pública Katherine (Jennifer Ehle) acredita na inocência do rapaz e lembra a Steve que seu trabalho é fazer dele um ser humano aos olhos do júri. É como um “ser humano” que vamos acompanhar o cotidiano de Steve, filmando e fotografando com sua camerazinha amadora pelas ruas do Harlem, suas aulas de cinema no colégio Stuyvesant com o professor Leroy Sawicki (Tim Blake Nelson), na vida doméstica com os pais e o irmãozinho Jerry, na balada com os amigos, e quando do envolvimento com o mentor do assalto William King (ASAP Rocky) e seu comparsa Richard “Bobo” (John David Washington). O roteiro de ‘Monstro’ é assinado por três roteiristas, entre eles, o autor do livro Walter Dean Myers que originou o filme, daí, talvez a opção pela voz over de Steve fazendo elucubrações sobre sua vida, a justiça e a realidade da gente negra, um recurso bem utilizado no filme. 

No mais, a fotografia de David Davlin opta por procedimentos que enfatizam, ora a câmera na mão instável, em situações de maior tensão, com montagem rápida, ora com o uso de steadycam que faz a câmera deslizar pelos personagens, como nas cenas de tribunal. Este é o primeiro longa do diretor de videoclipes Anthony Mandler, inclusive do polêmico ‘Man Down’ dirigido para o single da cantora Rihanna, onde ela aparece sendo estuprada e matando o criminoso no dia seguinte. ‘Dois estranhos’ e ‘Monstro’ são representações cinematográficas contundentes de um racismo estrutural. Uma frase de Carter James, em ‘Dois estranhos, sintetiza o conceito desse mal: “Alguns negros cometem crime, mas que escolhas eles têm se os brancos nascem na cara para o gol e os negros estão fora do estádio?”

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