Nelson Barros

Nelson Barros é psicoterapeuta e escritor.


Dias de fúria

Na praça de alimentação do shopping, um homem reclama com a funcionária que o seu pedido está demorando. Faz isso aos gritos e xingando a moça. Um outro sai em defesa dela. Logo os dois estão se agredindo a cadeiradas, alheios ao desespero das crianças que assistem a cena. O psicopata que mobilizou meio mundo foi finalmente capturado. Trinta e oito tiros, jogado na ambulância como um saco, a morte comemorada pelos policiais, numa celebração digna dos tempos do cangaço.

Um menino foi brutalmente assassinado pelo padrasto. A mãe do garoto saiu do enterro e foi pro cabeleireiro. A moça do caixa do supermercado foi agredida porque pediu que o cliente colocasse a máscara, o que inclusive é exigido por lei. Uma mulher trans teve o braço amputado, depois de ter sido queimada viva. O motorista do aplicativo interrompeu a corrida e exigiu que os passageiros, um casal gay, descessem do automóvel, “senão iria quebrá-los no cacete”. Um homem, inconformado com a separação, matou a filha, a ex-mulher e suicidou-se. O “cidadão de bem” abordou o rapaz negro dizendo que a bicicleta que ele pedalava era da sua filha. Não era. O presidente não gostou da pergunta da repórter e, como de hábito, aos berros, soltou seus deselegantes impropérios de baixo calão.

Tem alguma coisa muito errada, nisso tudo.

Tem alguma coisa muito errada, nisso tudo.

Estamos doentes.

Não podemos achar isso normal. Não podemos nos acostumar com isso.

Não suportaremos viver sob tanta tensão. Não suportaremos viver com medo ou com raiva da pessoa que está na mesa ao lado, na fila do banco, no banco da igreja. Não suportaremos viver sem empatia.

O ódio é ativo, agressivo, potente.

O amor é passivo, mas também é potente.

Mas só um deles vai nos levar a uma construção decente de humanidade e civilização.

Precisamos interromper essa onda de ódio.

Se as coisas continuarem desse jeito, “estamos lascados”. Todos.

Ano que vem teremos eleições. Espero.

Se não entendermos o que está acontecendo, se não dermos um basta nisso, serão as eleições mais violentas de que já podemos ter ouvido falar.

Cresci aprendendo que o povo brasileiro é solidário, alegre, festeiro, afetuoso, espontâneo. Lia isso nos livros e revistas que falavam da gente. Mesmo assistindo as “pequenas corrupções”: furar fila, fazer gato de energia, comprar coisas pirateadas, subornar guarda de trânsito, dar carteirada. Mesmo assistindo as agressões cotidianas: agredir mulheres, gays e negros, tanto com palavras pejorativas como fisicamente. Mesmo escutando frases como: “você vai ver com quem mexeu!”, “eu sou ruim e o cabelo ajuda(quem lembra dessa?)”, “gosto de levar vantagem em tudo”, eternizada como a lei do Gerson. “Apanhou porque mereceu”.

Cresci ouvindo que é vergonhoso ser bom. Ser bom é igual a ser otário.

Afinal, quem somos?

Qual identidade de povo queremos ter? Como queremos ser vistos, por nós mesmos e pelos outros, enquanto brasileiros?

Onde foi que a gente se desviou da lição de ser um povo alegre, diverso, cordato e tolerante, para se tornar um povo tão violento?

Vamos voltar, pessoal. Vamos voltar às lições importantes. Ghandi, Jesus, Buda, Luther King, Mandela. Esses nomes entraram para a história, por terem defendido o amor, a compaixão, a tolerância. A nossa história está sendo contada a todo momento, hoje com o registro veloz das redes sociais. Não é possível que queiramos reproduzí-la nos seus momentos mais feios de barbárie, comparados a personagens monstruosos, que não carecem ser citados.

Vamos voltar aos hippies e seu lindo lema: Paz e Amor.

Comentários

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.