Célia Chaves

Jornalista , Psicóloga, cursando pós-graduação em Psicanálise.


Desejo de morte e o reencontro com a vida

Não, não se trata de ato de coragem, tampouco covardia. Talvez, sim, a gota de sangue final em forma de desespero. O suicídio – ou tentativa – também revela a comunicação de uma angústia sentida, mas não consentida, responsável pela finitude de vidas que, por vezes, mal começaram. Afinal, o grupo mais afetado permeia entre 15 e 29 anos.

​ Ao contrário de outros problemas de saúde pública, emerge em todos os segmentos sociais, entre homens e mulheres, por razões das mais variadas. Gritos e silêncios ensurdecedores ecoam a cada 40 segundos, mundialmente, quando mais uma pessoa parte para seu último gesto.

​ Ainda assim, o tema constitui tabu, até mesmo nas instituições de saúde, imprensa e em órgãos representativos da sociedade organizada. Pouco se diz ou pode falar, em função da propagação de uma falsa ideia, segundo a qual, essa discussão e divulgação dos casos provocariam o aumento dos números existentes.

Felizmente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) já reconheceu a necessidade de informações e debates, a fim de se prevenir muitas das ideações suicidas. Difícil evitar a morte e suas pulsões, mas é plenamente possível tratar dores e angústias que minam instintos de sobrevivência.

Às vésperas de mais um Setembro Amarelo, em meio ao momento pandêmico, quando tentativas e consumações assumiram proporções ainda maiores, a sociedade clama por discussões respeitosas e verdadeiramente amadurecidas. Nada de culpabilizações e julgamentos desnecessários, que tão somente servem para machucar pessoas já combalidas por um luto cheio de tristeza e melancolia.

A despeito de tudo que mostra a literatura vigente, sobretudo no que refere-se à associação entre suicídio, transtornos mentais e alguns quadros psicopatológicos, sabe-se que há inúmeras causas e gatilhos. Cada caso é único, inclusive nos sinais e manifestações de pedidos de socorro.

Da fama ao ostracismo; na riqueza à falência financeira; na doença ou excesso de saúde; sob intensa paixão ou na frieza da solidão; na depressão ou euforia, muitas situações podem transformar-se em gatilho à abreviação da vida, por mais que sequer desejemos morrer. Afinal, vislumbra-se mesmo é a solução para uma dor insuportável, que maltrata mente e corpo programados para viver.

A autodestruição aparece, infeliz e equivocadamente, como única saída, quando, na verdade, há diversidade de caminhos e frestas a serem percorridas. Mas o desespero cega e faz secar pulsões de vida. Na ausência dos instintos de sobrevivência, todos os cuidados podem ser poucos. As pulsões de morte estão quase transbordando, e precisa-se evitar a gota d’água.

Faz-se necessário, portanto, acompanhamentos sistemáticos, envolvendo família, profissionais capacitados e amigos. Enfim, uma rede de apoio. Falar acerca do problema, pedir ajuda às pessoas certas, buscar atendimento psicoterápico, além de assistência psiquiátrica e farmacológica, constituem algumas das alternativas capazes de salvar a própria existência.

Se ainda assim a desesperança persistir, a ponto de o suicídio ser considerado única solução, não hesite em conversar franca e demasiadamente sobre tais pensamentos, angústias e subjetividades. Somente ao deparar-se com amor e acolhimento, o ser humano pode reencontrar algo capaz de fazer sentido à vida. E aquele problema que tanto afugentava, passa a ser apenas mais um a ser ressignificado, resolvido ou simplesmente largado. É só esperar, por lampejos de segundos, minutos, dias, meses ou ano … Tudo passa.

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