Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


Da atuação à direção, Marcélia Cartaxo filma seu quarto curta-metragem em Mossoró

Como atriz, a paraibana de Cajazeiras Marcélia Cartaxo provou ao Brasil e ao mundo o seu talento, com dois papeis que a catapultaram ao panteão das grandes intérpretes do cinema brasileiro: a desafortunada Macabeia em ‘A hora da estrela’ (Suzana Amaral, 1985) que a regalou com o Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim, e a igualmente infausta Pacarrete no recente longa-metragem homônimo do cearense Allan Deberton – que carreou quase todos os prêmios na 47ª edição do Festival de Gramado em 2019, inclusive de melhor filme, direção, roteiro, atriz (Marcélia Cartaxo) e atriz coadjuvante (Soia Lira).

O que pouca gente sabe é que Marcélia atua também por trás das câmeras na função de diretora, uma empreitada que começou há 18 anos, codirigindo com a carioca Gisella de Mello o curta-metragem ‘Tempo de ira’ (2003, 15min). Baseado no conto ‘Cícera Candoia’ do escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, publicado no seu livro ‘A faca’ pela extinta Cosac Naif, em 2003, ‘Tempo de Ira’ tem roteiro adaptado pelo pernambucano Marcelo Gomes (‘Cinema, Aspirinas e Urubus’, 2005). Além da direção, o curta tem Marcélia como intérprete da angustiada Cícera Candoia que tem de decidir ficar no vilarejo em plena seca ou deixar a mãe doente e fugir da fome com o seu amado Quinzim (Nanego Lira). Este primeiro filme da atriz na direção teve uma boa recepção em festivais como o de Gramado e a 27ª Mostra Internacional de São Paulo.  

Dez anos depois, numa direção solo, Marcélia escreve, atua e dirige ‘De Lua’ (2013), seu segundo curta-metragem, que mistura imaginação e realidade para falar de um homem recém-casado vivendo tormentos inexplicáveis em noites de lua cheia. Nessa abordagem metafísica e instigante, Marcélia convidou seus pais Elza e José, e sua irmã Mércia Cartaxo (todos in memoriam) para interpretarem sua própria família no filme. É um curta com pouquíssimos diálogos que narra sua história recorrendo a uma encenação baseada nos gestos, olhares e ação dos personagens Madalena (a própria Marcélia Cartaxo) e o seu noivo (Odécio Antonio). Com um enredo lacunar e um belo trabalho de locação (na zona rural de Bananeiras), estranhamente, ‘De Lua’ não teve a repercussão merecida.

A atriz volta à direção e realiza seu terceiro curta (‘Redemunho’) depois de atuar como Querência em ‘A história da eternidade’, primeiro longa do pernambucano Camilo Cavalcanti (2014), ao lado de Zezita Matos, Irandhir Santos, Cláudio Jaborandy e Débora Ingrid, o que lhe rendeu mais prêmios e reconhecimento. Em 2016, quando estreia ‘Redemunho’, Marcélia estava na telona com o longa ‘Big Jato’ do também pernambucano Cláudio Assis, sendo, por este trabalho, agraciada com o troféu de melhor atriz no Festival de Brasília daquele ano. Adaptado do conto homônimo de Ronaldo Correia de Brito, ‘Redemunho’ atesta o talento da atriz por trás das câmeras. Neste seu terceiro curta, Marcélia não atua. Na trama estão apenas dois personagens: uma mãe (interpretada por Eleonora Montenegro) e o filho (Daniel Porpino), que vivem um intenso conflito familiar. ‘Redemunho’ foi um dos grandes vencedores da 20ª edição do Cine Pe, levando os prêmios de melhor curta-metragem, ator (Porpino), roteiro e prêmio do Canal Brasil.

Desta vez, o quarto curta-metragem de Marcélia Cartaxo não se origina de um projeto individual como ‘Redemunho’ e ‘De Lua’. A atriz foi convidada por Ana Carla Azevedo e Joriana Pontes a dirigir a adaptação para o cinema assinada pelas atrizes do espetáculo ‘Casa de Louvor’, encenado pela Cia Bagana de Teatro de Mossoró (RN), entre 2016 e 2019. O tema da peça (e, claro, do filme), inspirada, em parte, a partir de fatos reais, aborda o poder masculino sobre a mulher numa sociedade machista e patriarcal do interior nordestino.

Para o curta ‘Casa do Louvor’, o roteiro é assinado por Ana Carla Azevedo e Joriana Pontes – posteriormente com a minha consultoria e significantes contribuições de Hélder Bruno Mendonça, Marcélia e Cristiane Fragoso, que faz a assistência de direção. As filmagens tiveram início essa semana com locações na cidade de Mossoró, em sua maior parte, e Currais Novos. O texto dramatúrgico da peça ‘Casa de Louvor’ veio de um recital encenado pela companhia Bagana (‘Casa de Recursos’), numa criação coletiva e direção-dramatúrgica de Carla Pires Martin. Na peça e no curta, a personagem Lucrécia é vivida por Joriana Pontes. Ana Carla Azevedo faz Ofélia da Lama no curta.

A atriz Marcélia é reconhecida por imprimir comedimento às suas atuações, com expressões, gestos e olhares sutis na construção de suas personagens, exceção feitas às demandas histriônicas das personagens Laurita (‘Madame Satã’, de Karim Aïnouz, 2002) e Pacarrete (‘Pacarrete’, de Allan Deberton, 2019). No primeiro, ela interpreta uma mulher livre do submundo carioca, companheira de João, a “madame Satã”, que vive intensamente apesar das adversidades. No segundo, encarna a professora de dança aposentada Pacarrete que ainda busca, sob pena do escárnio dos conterrâneos de Russas cidade do interior cearense, o reconhecimento pelo seu trabalho artístico. Depois de Macabéa, Querência e Pacarrete, qual personagem Marcélia ainda poderá eternizar?  

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