Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


“Cria Cuervos”: alegorias e metáforas no cinema espanhol sob a Ditadura Franquista

Toda imagem traz em si camadas de significações, aquelas mais evidentes e, digamos, de leitura universal, e outras camadas que comportam outras leituras que exigem do espectador um esforço cognitivo maior na sua interpretação. Em sociedades totalitárias, onde o Estado exerce forte censura sobre a informação e sobre as diversas manifestações artísticas, o cinema foi pródigo em lançar mão de figuras de linguagem para driblar a tesoura da censura mais amiúde do que em tempos normais.

A Ditadura de Francisco Franco na Espanha, entre 1939, com o fim da Guerra Civil, até 1975, com a morte do caudilho, levou diversos cineastas a tratar certos temas usando recursos metafóricos e alegóricos. O surrealista mais conhecido do cinema, Luís Buñuel, já era pródigo no uso de imagens oníricas e simbólicas mesmo livre dos tentáculos nocivos da censura. De 13 filmes disponíveis em dezembro numa mostra do cinema em espanhol na Plataforma Petra Belas Artes à la Carte, cinco foram realizados entre 1961 e 1976, a exemplo de Cria Cuervos, lançado por Carlos Saura em 1976, já nos estertores da Ditadura Franquista. Dos cinco filmes, dois são do mestre Buñuel: Viridiana (1961) e Tristana (1970). Os outros dois são O espírito da colmeia (1973), de Vitor Érice, e O verdugo (1963), de Luís Garcia.

O que dizem esses filmes do período franquista, o que eles mencionam subliminarmente? Detenho aqui a buscar essas metáforas em Cria Cuervos, de Carlos Saura (ainda no cardápio do Bellas Artes), filme que marcou minha jornada como cinéfilo adulto nos cineclubes da capital no final da década de 1970, início da abertura política no Brasil e declínio da nossa malfadada Ditadura. Foi nessa época que abandonei meu ufanismo e caí na real: dos meus sete aos 22 anos vivi inocentemente sob uma ditadura ferrenha, doutrinado apenas para o conhecimento, muitas vezes enviesado, das ditaduras comunistas.

Cria Cuervos (argumento, roteiro e direção de Carlos Saura) conta a história da família de Ana (Ana Torrente) a partir do ponto de vista da menina de olhos tristes e atentos para as sutilezas dos conflitos familiares, às vezes, nem tão sutis assim. O microcosmo a que está reduzida a sua vida, isto é, seu núcleo familiar – inicialmente pai, mãe, avó, e as duas irmãs Maite e Irene. Durante os créditos iniciais, fotos da família de Ana se alternam na tela. Na primeira cena do filme, a câmera passeia por uma casa sombria até encontrar Ana que desce as escadas guiada pelos ruídos no quarto dos pais. Ela descobre o pai, um militar franquista, morto, e sua amante que escapa assustada. No velório, Ana se recusa a beijar o pai. A partir daí, as presenças no enredo do pai Anselmo (Héctor Alterio) e da mãe (Geraldine Chaplin) se dão em flashbacks através da memória e fantasias de Ana que vão reconstruindo o passado familiar, muitas vezes, de opressão e melancolia. Numa metonímia, Saura usa a parte pelo todo, representando, numa família burguesa, a Espanha sob o jugo do autoritarismo franquista. A morte e a perda (real e simbólica) estão presentes em toda a narrativa. Primeiro a mãe de Ana, corroída por uma doença incurável, depois o pai num infarto fulminante, em seguida seu hamster de estimação. A relação de Ana com a mãe é de carinho e cumplicidade e perpassa toda a narrativa em suas fantasias e fragmentos de memória.

As cenas externas em Cria Cuervos se limitam a vistas da avenida de frente à mansão onde vive a família de Ana e a um raro passeio a uma casa de campo. A circunscrição das ações a um único espaço reforça a sensação de confinamento e de opressão familiar, mas também funciona como uma alusão ao regime tirano de Franco. O voo imaginário de Ana que se vê sobrevoando livremente os arredores da mansão expressa essa fome de liberdade. Em alguns momentos da narrativa, Ana aparece adulta (igualmente encarnada por Geraldine Chaplin) narrando e interpretando acontecimentos passados que vemos sob a ótica de Ana criança: o desejo inexorável da morte do pai opressor, fonte de sofrimento e causa da morte da mãe – Ana acredita tê-lo matado com um “veneno poderosíssimo”.

Tentamos buscar significações para o prato com pés de galinha na geladeira, onde Ana por três vezes detém o olhar, como uma metáfora da tortura, mutilação e morte dos inimigos do regime franquista, mas o diretor explicou à época que apenas se inspirou no hábito de Geraldine Chaplin, então sua mulher, de guardar pés de galinha para preparar sopa. Com a morte do pai, Paulina (Mónica Randall), tia das crianças por parte da mãe, assume a responsabilidade de tomar conta da casa e se juntar ao que restou do núcleo familiar: a avó paterna, em eterno silêncio, expressando sinais apenas com o rosto (uma metáfora do silêncio infligido ao povo pelo generalíssimo Franco); a doméstica Rosa (Florinda Chico) e as três meninas. Ana parece ser a depositária da memória da avó ao tentar, através de um painel de fotografias e postais na parede da mansão, fazê-la não esquecer o passado.

Não dá para falar de Cria Cuervos sem mencionar a canção Por que te vás? tocada na vitrolinha das meninas que revezam uma simpática dança entre elas. A música virou um hit e se tornou indissociável do filme. O clima leve em alguns momentos, trazido pelas brincadeiras infantis das garotas, vai se tornando amargo na memória de Ana criança e adulta. Ana criança testemunha, de início, o adoecimento psicológico da mãe, abandonada pela indiferença do marido, para culminar no sofrimento físico causado pela doença. Ana criança enxerga na morte a solução para todos os problemas: acredita que envenenou o pai, tenta aliviar o sofrimento da avó e exterminar a tia, substituta da mãe, com o que acredita ser veneno (na realidade, bicarbonato de sódio).

Adulta, ela reflete sobre a infância: “Eu me lembro da minha infância como um período longo, interminável, triste, onde o medo dominava tudo, medo do desconhecido.” Saura narra um drama familiar para falar de uma Espanha enferma sob 36 anos de despotismo. O filme foi agraciado com o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 1976 e o Globo de Ouro nos EUA, entre diversos outros prêmios e indicações. Em tempo, o título do filme remete a um ditado popular na Espanha que diz “cria corvos e eles comerão teus olhos” se referindo a não confiar nas pessoas, ou seja, a desconfiança gerada pelo terror dos regimes autoritários.

Comentários

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.