Leonardo Dantas

Servidor público por precisão, jurista por formação e educador por paixão. É pós-graduado em Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas pela UFPB. Contato: leonardodantas09@gmail.com


Conversei com um Bolsominion

Com vários, na verdade. Faz uns anos que adquiri esse fetiche de me aproximar dos que pensam diferente de mim. Tem sido excitante e enriquecedor. A bolha é entediante e atrofia. Por que Bolsonaro não tem dois ou três por cento das intenções de voto? Por que esse candidato, que é a antítese do que penso sobre um político ideal, figura na preferência de milhões de cidadãos, a ponto de se tornar um fenômeno eleitoral, segundo as pesquisas, e uma liderança, hasteada por uma massa de gente por onde anda? O que se passa na cabeça dessas milhões de pessoas – muitas delas com alta cultura – para fazer essa opção de voto? Minha resposta não se baseia em qualquer pesquisa ou estudo mais elaborado, mas tão somente nesse contato com parentes, amigos e colegas, seja presencialmente ou por meio das redes sociais.

O Brasil vive o momento mais polarizado de sua recente democracia pós 1988, com perspectivas de radicalização. Para quem pensava (como eu) que 2014 seria o auge, está vendo que aquilo foi apenas um ensaio. Os mais conservadores colocam o PSDB numa posição meio de esquerda, lamentando que não havia direita no Brasil. Se não havia, agora há! Comparado a Bolsonaro, FHC/Serra/Alckmin estão à esquerda mesmo… Esses últimos anos foram recheados de novidades no campo da política, fazendo surgir algo que eu, na minha ingenuidade cultural, não sabia que existia: movimentos sociais de direita. Uma militância, também aguerrida, também de rua, também de gritos, de socos e de pontapés… Também radical, intolerante, chata e alienada. Mas isso, por outro lado, enriqueceu a política brasileira, porque a ideologia foi colocada no centro das decisões eleitorais. E isso fica muito claro quando converso com essas pessoas próximas.

Anos de trabalho intensivo e organizado de lideranças conservadoras – civis, militares e eclesiásticas – revelaram para o público médio (e eu me incluo nele) uma leitura da história e do pensamento socialista, diferente do que estávamos acostumados a ver e ouvir. Um contraditório do ideário marxista (e comunista, de uma maneira geral) emerge com força no Brasil. Jovens comunicadores e carismáticos cuidam de replicar em cadeia esses conteúdos – com maior, menor ou nenhum aprofundamento – nas redes sociais… E o Brasil ficou dividido.

Penso que havia uma demanda reprimida, que encontrou perfeita ressonância nesse novo discurso. Somos “conservadores” no sentido mais literal e menos usual da palavra. Recebemos historicamente uma formação cultural/religiosa tradicional dos nossos colonizadores, nos tornando a maior nação católica do mundo, rivalizada hoje com o grupo evangélico, que é gigante, militante e mais homogêneo. Como sociedade conservadora, somos hipócritas também (o pacote só vem completo): há uma sociedade liberal paralela (quase anárquica), que goza (goza muito) e desfruta de prazeres excêntricos, sendo que por trás das coxias. “Fulano é mais discreto, que rapariga de pastor”, diz o ditado. Enfim, hipocrisias à parte e com respeito aos pastores, o meio Brasil quer “conservar” os valores tradicionais (nesse sentido, são orgulhosamente reacionários); a outra banda (dos revolucionários e progressistas) luta por mudanças profundas e opostas…

Na construção dessa rivalidade, Bolsonaro assumiu, na política, a representação maior do que chamamos de direita, da defesa e resgate da moralidade tradicional. E o fez por méritos próprios, protagonizando com indignação exuberante as tretas com os petistas e psolistas no Congresso Nacional, para reality nenhum botar defeito. Nesse jogo, que exige ousadia e criatividade, quanto menos politicamente correto, melhor, a exemplo da sádica menção ao coronel Brilhante Ustra, na noite da derrota de Dilma Rousseff na Câmara (na votação do impeachment), revidada por uma cusparada cinematográfica… A política brasileira passou a ser um entretenimento interessante, atraindo telespectadores como nunca. O Parlamento popularizou-se como as novelas; Bolsonaro, como o Sinhozinho Malta. “O mito” foi metralhando petralhas Brasil afora, tornando-se uma celebridade. Herói, anti-herói e vilão, ao mesmo tempo, de uma trama surpreendente, cujo o clímax se deu no episódio da facada, e com desfecho da primeira temporada anunciado para este mês de outubro. Você não pode perder!

Posso garantir que muitos, muitos de seus eleitores não preferem a tortura, o fascismo, a homofobia, nem o racismo, que ele, de fato, acaba estimulando com seus corriqueiros e naturais pronunciamentos fora da curva. Muitos me confessam – privativamente – que o considera infeliz nessas horas. Ocorre que esses cidadãos se convenceram que a agenda de esquerda, no campo das políticas públicas, especialmente no campo cultural e dos costumes, ameaçam esse modelo tradicional e conservador de organização social, historicamente construído. A religião assume, na minha percepção, um componente determinante nessa escolha, nessa opção de voto. Em última análise, entende-se que o PT coloca em risco o próprio cristianismo, chegando a ser explicitamente demonizado nas tribunas, nos eventos e nas redes sociais. Então, tudo o mais deve e merece ser relativizado, porque o bem maior está em jogo. Tudo menos o “satanás”. Bolsonaro seria a opção viável do momento, “é o que temos pra hoje”, relatam.

É claro que outros fatores concorrem. Dentre os principais, a violência e a corrupção. Começando pelo último, não se pode negar que foi no governo do PT, de Lula e Dilma, que se publicizou o maior escândalo de corrupção de que se tem notícia na nossa história. A quem diga que durante os governos militares se roubava mais. A quem diga que no governo do PSDB se roubava tanto quanto. Mas não se investigava com independência nos governos militares e não se denunciava com independência no governo FHC… Por outro lado, quando há investigação, denúncia, processo, ampla defesa, condenação e prisão, a coisa toma um grau de certeza e credibilidade muito maiores… Foram condenadas pessoas ligadas a outros partidos também, sabemos, mas o desgaste maior, inevitavelmente, fica com o governante e seu grupo político. Costumo dizer que 13 anos é tempo suficiente para desgastar qualquer governo, seja ele qual for. O Mensalão, a Operação Lava Jato, e outras, potencializaram e multiplicaram esse desgaste. “Tudo, menos a esquerda”.

Quanto à violência, penso que o raciocínio pode ser aplicado. Apesar de a segurança pública nas cidades ser atribuição constitucional dos governos estaduais, o comando central acaba sendo responsabilizado. E tem culpa no cartório também. Enquanto o Sistema Único de Saúde (SUS) foi instituído desde 1990, a lei federal do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) foi criada somente agora, no meio do ano. Houve negligência. A violência bate à nossa porta e o medo entrou na nossa casa.

Nesse contexto, nada como um evangélico conservador, varão, batizado nas águas do Rio Jordão (como Jesus), com “Messias” sobre(o)nome, e militar do Exército, para ser vocacionado a redentor. E já está sendo crucificado…

Na análise, não importa tanto a economia, e seu confesso desconhecimento a respeito; a diplomacia, e seu método rígido de negociação; a democracia, e sua relação conflituosa com grupos vulneráveis; a política, e sua impaciência com o debate e com a imprensa… Não importa. Porque agora é a vez da ideologia! Na religião e na política, na moral e nos costumes.

Espero em Deus (e nas pessoas), que o Brasil escolha a porta estreita, difícil de achar, difícil de entrar. A porta da sabedoria, da maturidade, da sobriedade, da responsabilidade, enfim, da paz… E não a da ignorância, da imprudência, da demagogia, da inconsequência, enfim, da guerra, que encontramos em tudo o que é canto, em tudo o que é lado, em tudo o que é torcida…

Por fim peço desculpas pelo tamanho do texto (não costumo ser cansativo assim) e pelo uso da expressão “bolsominion”, no título. O fiz por mero recurso de estilo e visibilidade (talvez desnecessariamente). Julgo essa uma expressão ofensiva, desrespeitosa, e que, principalmente, não retrata o perfil heterogêneo dos referidos eleitores: muitos são estúpidos e alienados, é verdade; mas muitos outros nem tanto, e outros, posso afirmar, longe disso.

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