Como assim, nazismo?

É estarrecedor o que o (ex) Secretário da Cultura do governo federal fez nessa última sexta feira. E indesculpável. Repugnante também são as suas justificativas.

Acho difícil o leitor não ter acompanhado os fatos, mas, para quem não sabe do que estamos falando: em um vídeo oficial de sua pasta, ele parafraseou (para não dizer plagiou) um discurso de Joseph Goebbels – o homem da mais alta proximidade e confiança de Adolf Hitler -, que atuou como Ministro da Propaganda do governo nazista. Esse período genocida é considerado um dos mais cruéis da história da humanidade (você sabe) e, por essa razão, só deve ser referido para repudiá-lo veementemente, como fazem os próprios alemães. Arquitetaram um verdadeiro complexo industrial de execução de pessoas. Só de judeus, foram seis milhões…

O Secretário fez mais: como dramaturgo de formação que é, produziu um cenário semelhante ao do gabinete daquele Ministro e ainda selecionou como fundo musical da sua fala uma ópera do músico alemão Richard Wagner, o preferido de Hitler (que também escolheu composição do mesmo autor em seu discurso de posse como governante maior da nação alemã). E fez mais: tentou imitar, focando na câmera, a impostação da voz, o olhar penetrante e a expressão de um super herói vocacionado a erguer a raça ariana… É ver para crer.

Em seu roteiro, vaidosamente elaborado, o redentor das Américas plagiou que “a arte brasileira [alemã] da próxima década será heroica” (…), “será nacional” (…), “será igualmente imperativa” (…) “ou não será nada”. Substituiu “será ferreamente romântica”, do discurso original, por “será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional” e ainda “vinculante” por “profundamente vinculada”. Enfim, fez de tudo para se sentir ou se passar pelos seus admiradores…

Digo isso sem blasfêmia, porque, nas suas justificativas, o Secretário explicou que elaborou a maior parte do texto; que a seleção musical foi feita por ele mesmo; que, assim como Goebbels e outros intelectuais absolutamente incríveis, ele também defende uma arte nacionalista, apesar de não concordar com o genocídio nazista; que, apesar da coincidência retórica, “as ideias contidas na frase são absolutamente perfeitas e eu assino embaixo delas”.

Ora, senhor ex Secretário, já que há outros tantos intelectuais absolutamente incríveis que pensam como você, por que escolher copiar exatamente esse expoente do nazismo? Ora, senhor ex Secretário, num universo de tantos gênios da música, da música clássica, por que selecionar exatamente uma ópera do maestro alemão preferido de Hitler, autor de várias composições antissemitas? Se o cenário foi tão caprichosamente e profissionalmente armado, como seria possível aceitar que tais referências tenham sido mera coincidência, como o senhor tentou (em vão) fazer crer? Se tudo foi simbolicamente e propositalmente comunicado através do quadro, da bandeira e da cruz, como seria possível acreditar que não o teria sido em relação ao texto, à canção, à entonação e à atuação? Tudo foi bem pensado. Meticulosamente planejado.

Ora, senhor ex Secretário, é com esse ideário que fundamenta sua oposição ao PT socialista? É por meio dessas personalidades que deseja fazer frente à Che Guevara, Stalin e Fidel Castro? É com esses atores que pretende refundar a cultura brasileira? É com esses estadistas que espera democratizar a nossa república? O que você fez foi um desserviço à nação! Você não representa, com esses elementos, a melhor direita do pensamento político nacional. Tragicamente, você estimulou, talvez, os militantes mais imaturos, ignorantes e inconsequentes no nosso povo (de direita ou esquerda, porque nos extremos eles se parecem). E talvez isso lhe agrade…

Triste mesmo é saber que o senhor saiu, mas muitos de seus amiguinhos continuarão trabalhando lá…

Digo e repito: o contrário do radicalismo não é o radicalismo oposto, mas a moderação. E a democracia é o regime da moderação por excelência, mas os brasileiros não tem gostado muito disso ultimamente…

Tempos estranhos…

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