Com posse adiada, auxiliares do presidente admitem que situação do ministro é ‘complicada’

A posse do ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, que estava prevista para terça-feira, foi adiada após a revelação de incongruências no seu currículo acadêmico. A avaliação é de que a situação do novo ministro é complicada e sua imagem ficou “maculada” pelas informações falsas no currículo. Uma eventual demissão estaria em “análise”, afirmam intelocutores.

De acordo com auxiliares, o clima ficou desconfortável no Planalto depois que vieram à tona as notícias que de que Decotelli não tem o título de doutorado e as acusações de plágio na dissertação de mestrado. O GLOBO apurou que o grupo de generais responsáveis pela indicação foi confrontado pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, que ficou irritado com a situação.

De acordo com fontes, o clima é de constrangimento entre os militares e apoiadores da nomeação de Decotelli ao MEC. Segundo interlocutores, as incorreções no currículo de Decotelli pegaram “todos de surpresa” gerando uma situação incômoda entre os que capitanearam a ida de Decotelli para o MEC, entre eles o general Alessio Ribeiro Souto, que participa de discussões na educação desde a transição. Nesse momento, o governo faz um “pente fino” no histórico do ministro.

A análise é de que a situação fragiliza a chegada de Decotelli ao MEC ainda que ele continue à frente da pasta, uma vez que terá sua legitimidade constantemente questionada na atuação com seus pares. Sobretudo na articulação com as universidades públicas.

A nomeação de Decotelli chegou a ser comemorada justamente por conta de seu perfil considerado “técnico”, mas as inconsistências em seu currículo começaram a aparecer em seguida, quando o reitor da Universidade Nacional de Rosário publicou no Twitter que o ministro não havia obtido título de doutor na instituição. Depois disso, um professor do Insper também apontou indícios de plágio na dissertação de mestrado de Decotelli.

Nesta segunda-feira, outra distorção no currículo de Decotelli ficou evidente. Mesmo sem ter doutorado, continuava constando na plataforma Lattes um “pós-doutorado” que ele diz ter feito na Universidade de Wüppertal, na Alemanha. A instituição confirmou ao GLOBO que Decotelli fez uma pesquisa na universidade em 2016, por três meses, mas destacou não ter emitido qualquer título a ele. Um pós-doutorado não é um título acadêmico formal, mas é um termo usado em referência apenas a pesquisas feitas após um acadêmico obter um título de doutor — pré-requisito que Decotelli não tem.

Nesta segunda-feira, Decotelli fez alterações no seu currículo acadêmico, publicado na plataforma Lattes, do CNPq. Ele retirou a informação de que fez doutorado na Argentina e pós-doutorado na Alemanha.

Agora, informa apenas que “construiu um projeto de pesquisa (…) que foi submetido à Bergische Universitat Wuppertal, na Alemanha, tendo por base pesquisa específica que teve o apoio da empresa Krone (www.krone.de)” e “realizou o curso de Doutorado em Administração pela Universidade Nacional de Rosário (Argentina), tendo sido aprovado em todas as disciplinas dos créditos exigidos”.

Ter feito todas as disciplinas de um curso de doutorado não garante o título. Isso porque uma banca tem que aprovar a tese do pesquisador. Decotelli não cumpriu essa etapa.

O ministro manteve ainda no currículo Lattes a informação de que é mestre em Administração pela FGV EBAPE, cuja dissertação foi acusada de plágio.

O Globo Online

1 comentário

  • Luís SÁ
    16:16

    Não se trata de incorreções no currículo. O que ocorreu foram falsificações previstas no Código Penal em seus arts. 297 a 299, que tratam da “Falsificação de Documentos Públicos”.
    A Plataforma de Curriculos Lattes (do próprio MEC) inclusive faz um alerta a professores e pesquisadores sobre esta possibilidade de penalização.
    Portanto não existe doutorado e tampouco o pós doutorado, sendo que existem indícios de que a dissertação de mestrado foi plagiada, o que invalidaria este título também, caso confirmado o plágio.
    Ou seja, pode ficar sem qualquer título de pós graduação. E se recuássemos para a graduação, nivel médio, fundamental, talvez possa se encontrar mais irregularidades.

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