Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


Com ‘Machuca’, Andrés Wood revive o terror da ditadura chilena

As ditaduras militares no Brasil, Argentina, Chile e Uruguai renderam filmes memoráveis. O diretor chileno Andrés Wood lançou em 2004 ‘Machuca’ (116min), seu primeiro longa a abordar o tema da ditadura de Pinochet no Chile a partir de 1973, uma das mais longas e violentas da América do Sul (17 anos). O longa-metragem é uma coprodução Chile, França, Espanha e Reino Unido disponibilizada desde maio passado na Netflix e Now. Neste mês, chega aos cinemas brasileiros sua nova produção,‘Aranha’ (2019), somando mais um filme político à sua filmografia. Wood é o diretor do belo ‘Violeta foi para o Céu’ (2011). 

‘Machuca’ se passa na Santiago do conturbado ano de 1973 para a história do país com pistas dos sinais de horror do que estaria por vir com o Golpe Militar, apoiado pelos EUA, que derrubou o presidente socialista eleito Salvador Allende. O garoto de classe média alta, Gonzalo Infante (Matias Quer), se prepara para ir à aula no Saint Patrick School, um colégio inglês para garotos frequentado pela classe abastada local. O som do noticiário no rádio dá uma rápida noção do momento político no país. As cenas iniciais nos situam no universo escolar, microcosmo do cenário maior da história.

Na escola, Gonzalo conhece Pedro Machuca (Ariel Mateluna), garoto de origem pobre que é inserido na escola, como outros poucos de sua origem, por conta da política de inserção do padre inglês McEnroe (Ernesto Malbran). Sob um governo com uma política socialista, a proposta do colégio Saint Patrick é proporcionar aos estudantes uma formação que inclui a convivência com outras etnias e classes sociais distintas, além de dar oportunidade a alguns garotos da periferia ao acesso a uma educação diferenciada. Contudo, num contexto social de acirramento e polarização, a boa intenção do diretor vai gerar conflito entre os estudantes e suas famílias, como também entre os amigos Gonzalo e Pedro (o Machuca). 

Impossível não estabelecer uma conexão do Chile de 1973 e o Brasil de hoje com os mesmos embates ideológicos. O pavor de parte da população chilena, a elite sobretudo, era o comunismo, até justificado no contexto mundial da época com a União Soviética e China representantes maiores desse regime. No Brasil de hoje são risíveis as palavras de ordem nas manifestações da extrema direita. A mais emblemática é “a nossa bandeira jamais será vermelha’. 

Enquanto nas ruas de Santiago, passeatas pró e contra Allende viram rotina, os amigos Alonzo e Machuca vivem a quimera de uma amizade numa sociedade sem conflitos de classe até que a intolerância dos adultos, como também dos colegas de turma, vai contaminar essa relação. Na apresentação do padre McEnroe dos novos colegas à turma de Alonzo, o contraste entre eles salta aos olhos. De cara, um dos colegas adverte a Machuca que são os pais deles que pagam a escola e que são eles (os garotos) quem dita as regras do jogo. A família de Machuca vive numa ocupação precária nos arrabaldes da capital chilena. Por sua vez, Alonzo pertence a uma família cujo é pai representante do escritório chileno da FAO (Agência das Nações Unidas de combate à fome) e a mãe, sem ocupação, é uma bela e amorosa mulher que vive de mimos do amante rico. A população já vive o desabastecimento de alimentos que mina o governo Allende.

Junta-se à dupla, a adolescente Silvana (Manuela Martelli), prima de Machuca, cujo pai tira proveito da polarização ideológica durante os atos políticos para vender cigarros e bandeirolas, literalmente à direita e à esquerda, ao gosto do freguês, “pulando” conforme a música, criando o alívio cômico do filme. Alívio que encontramos também nas cenas em que o Gonzalo dá seu primeiro beijo na boca com troca de fluidos e leite condensado. Mas o terror fascista vai mostrando suas garras quando os porcos do colégio aparecem envenenados como retaliação às ações “marxistas” do padre McEnroe, culminado com o assassinato de Allende e a instauração da ditadura militar.

Wood trabalha esses dois universos (o dos ricos e dos pobres) sem emitir juízo de valor sobre a classe dominante e sem vitimizar os desafortunados. Machuca, personagem que dá nome ao filme, por exemplo, tem forte consciência de classe, assim como sua prima Silvana, e não se deixa subjugar pelos colegas de turma chegando a enfrentar Lorenzo e questionar suas atitudes egoístas quando os conflitos afloram. Sem maniqueísmo, Wood aborda esses conflitos de classe com delicadeza a partir do ponto de vista de Lorenzo e seu universo infantil, incontornavelmente infectado pela intolerância dos adultos.

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