Célia Chaves

Jornalista, graduanda de Psicologia, no Uniesp.


Borderline: impulsividades e emoções

Na estrada da vida, quem nunca se sentiu no limite, sem controle das emoções e com a sensação de que não há mais nada a perder? Portanto, disposto a xingar, bater, odiar, inclusive partir para o tudo ou nada e lançar mão das atitudes mais extremas possíveis. Ainda que depois surja enorme sentimento de culpa, além de desespero e arrependimento. As pessoas com transtorno de personalidade borderline (TPB) vivenciam sobressaltos emocionais dessa natureza constantemente, às vezes a toda hora, a todo momento.

Trata-se de um dos transtornos mais lesivos e preocupantes, sobretudo entre adultos jovens, mundialmente. Provoca turbilhão de impulsividades e incertezas, além de conduzir o ser humano a uma montanha-russa de emoções, perpassando, em lampejos de segundos, por reações que vão do amor ao ódio; da alegria à tristeza profunda; da calmaria ao desejo de pôr fim à própria vida.

Cerca de 10% dos pacientes cometem suicídio, geralmente após episódios que retratam as várias faces de um sofrimento capaz de cortar na própria pele. Sim, o borderline sangra corpo e alma, em meio a crises e angústias. Automutila-se, na tentativa de redirecionar sentimentos e aliviar conflitos emocionais, ocasionados por razões diversas. É como se o corte, provocado pelo estilete ou qualquer outro objeto, por mais paradoxal que seja, estancasse feridas ainda mais dolorosas, ao menos momentaneamente.

A automutilação constitui uma das nuances desse transtorno que provoca prejuízos nos diferentes setores da vida de homens e mulheres. Precisa nem dizer como as relações amorosas são afetadas, além das familiares, profissionais e de amizades. Por mais competente, inteligente e cheio de habilidades, alguém com borderline enfrenta sérias dificuldades para relacionar-se, mesmo quando parece estar tudo bem.

Frustrações corriqueiras, a exemplo do cancelamento de um compromisso, podem ser a ponta do iceberg, gerando verdadeiro tsunami de emoções. Não necessita de muito para a pessoa sentir-se rejeitada, sem serventia, abandonada e o pior dos indivíduos. Com autopercepção distorcida e baixa autoestima, o borderline é capaz de fazer qualquer coisa para evitar ser largado (de forma real ou imaginária), por não suportar a ideia de ficar sozinho.

As explosões podem surgir em um piscar de olhos, a despeito da avalanche de expectativas e dependências. Não raro, o indivíduo acha que precisa do outro para viver, delegando não somente sua felicidade, mas a própria existência. Com isso, um relacionamento afetivo que poderia ser promissor, chega rapidamente ao fim, gerando uma série de sensações, principalmente culpa.

É sempre difícil abordar o tema personalidade, sobretudo quando tratam-se de transtornos. Cada um carrega jeito único de ser, sentir e relacionar-se com os outros, obedecendo ou não a determinados padrões. Não dá para relegar a amplitude de universos e singularidades, no afã de enquadrar pessoas em quaisquer categorias. Mas, nem por isso deve-se deixar essa discussão restrita aos ambientes acadêmicos e consultórios.

Afinal, muitos seres, principalmente mulheres, enfrentam o transtorno de personalidade borderline (também chamado de limítrofe), sem sequer tomar conhecimento ou buscar alguma forma de intervenção. Não há diagnóstico, tampouco acompanhamento de profissionais especializados. Uma multiplicidade de fatores, causas e consequências deve ser explorada durante atendimentos psicoterápicos e também psiquiátricos.

O tratamento fará toda a diferença, mesmo que o problema não desapareça por completo. Como diz os especialistas, haverão “pequenas curas que se somam”. Assim, as relações se tornarão mais estáveis, o limiar de frustração será maior e a capacidade de controlar as emoções também. E a vida? Ah, poderá ser degustada com muito mais satisfação.

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