Allysson Teotonio

Jornalista, publicitário e fotógrafo


Big Brother Bolsonaro

O mais novo capítulo do Big Brother Bolsonaro é estrelado por Carlos, que agora acusa a Globo de querer a morte do pai:

“Depois que uma emissora de tv e seus portais torceram em vão e descaradamente para morte do Presidente, desinformando a população, não vemos seu afinco nos importantes atos que Bolsonaro tem anunciado desde então; como desburocratização, economia e um General no comando do Incra”.

A nova cena do BBB nos leva a fazer algumas reflexões e chegar a algumas conclusões a respeito dessa briga (por enquanto) sem fim.

A Globo não é flor que se cheire. Fato. Mas é um espinho necessário à conjuntura atual. Não dá ponto sem nó. Mas tem sido essencial para desatar os nós dos rolos dos novos donos do poder. Malandros que não são santos nem aqui, nem na China, nem em Rio das Pedras.

É óbvio, porém, que o arsenal da Globo apontado para Flávio Bolsonaro, o “garoto”, tem como alvo principal o presidente Jair Bolsonaro, o papai. E que bom que a Globo seja mesmo um espinho no meio do caminho para espetar o dedo dos desacordados. A faxina nacional agradece. Mas acusar a emissora de torcer pela morte do presidente é, no mínimo, ato irresponsável e pouco inteligente.

Façamos então uma retrospectiva dos fatos para entendermos esse roteiro tragicômico de maior audiência do Brasil atual.

Alvo preferido da família Bolsonaro desde a eleição, acusada de faturar “bilhões” em verbas públicas, a maior e mais poderosa emissora de tevê do Brasil não quer levar desaforo pra casa e também não quer perder a fatia de mercado que lhe “pertence” para as rivais Record e SBT, as comparsas do novo presidente. E parte para o ataque.

Detalhe importante nesse caldeirão, caso você não saiba. Sempre que um político diz que vai cortar verba de propaganda ele está blefando. Se Bolsonaro cortar da Globo, como prometeu, vai levar esse valor pra outro lugar que lhe seja simpático. Vai trocar seis por meia-dúzia . Não se iluda. E mais: se cortar mesmo, no dia em que perceber que sua popularidade despencou, ele muda de ideia automaticamente e faz as pazes com os veículos adversários. “A vida como ele é”, meu caro. Lamento desapontá-lo.

Voltando ao tema central do BBB, é fato que o poder da Globo não é o mesmo de antigamente, após o advento e crescimento das redes sociais e da internet, mas esse novo mundo não fez da emissora carioca um gatinho inofensivo. A Globo permanece uma fera, que mesmo ferida pelo tempo é capaz de influenciar os rumos políticos do país.

A história da Globo é recheada de sucesso, desde o regime militar até hoje. A emissora, presente em todo o território nacional, exerce o ‘quarto poder’ no país com uma desenvoltura invejável a seus concorrentes. E, sempre que for necessário, a Globo estará disposta até a fazer jornalismo para alcançar seus interesses impublicáveis.

No caso que envolve o capitão, Flávio e Queiroz, em seus rolos entrelaçados, a Globo faz jornalismo, sim. Todo o arsenal da série de reportagens é fundamentada em documentos oficiais do Coaf, do Ministério Público, da Assembleia Legislativa do Rio e da Câmara dos Deputados. Não há delação questionável ou ilação de seu ninguém. E também não há nenhum juiz popstar para dar crédito aos relatos.

Na artilharia da Globo, há documentos, indícios claros, movimentações suspeitíssimas que já ultrapassam os R$ 8 milhões, fatos inquestionáveis e, sobretudo, posturas escorregadias dos acusados que corroboram as denúncias, como a de Flávio ao pedir anulação de provas no STF, a ausência dele e de Queiroz nos depoimentos ao MP, as desculpas esfarrapadas, enfim, um conjunto de atitudes que, na prática, significa tentar empurrar com a barriga a sujeira para debaixo do tapete.

Sem explicação plausível para nada, a família Bolsonaro tornou-se refém da Globo. Este é o principal fato. E não adianta nada fugir da Globo e tentar se explicar na Record e no SBT. Até aliados do presidente já admitem publicamente os rolos nos quais o presidente e seu filho estão metidos.

Diante desse quadro, é importante lembrar o seguinte: eleição é fantasia, governo é realidade. Mas parece que o presidente ainda não se deu conta disso. No entanto, a Globo, experiente e astuciosa, sabe muito bem como é a vida real. E sempre soube, com indiscutível competência, manipular informação ao seu bel prazer.

Sem nenhuma experiência para comandar um barco tão grande e complexo, Bolsonaro está à deriva. E a crise que envolve o filho e ele só complica a situação. Sim. O presidente está dentro da crise. Afinal, já declarou que Flávio é inocente e que as denúncias são infundadas, com o objetivo de atingir o seu governo. A bomba está no seu colo, portanto, porque assinou embaixo das desculpas insustentáveis do filho.

O presidente segue fazendo cena, fingindo que está tudo bem, dizendo que é vítima de perseguição da Globo, mas sem dar nenhuma resposta concreta, convincente para encerrar a crise. Ao contrário disso, a cada dia, enrola-se mais.

Não sei quem é o autor da tese, mas concordo plenamente com ela: entre a briga, Bolsonaro e a Globo, escolho ficar do lado da briga. A limpeza nacional, sem distinção de cor, agradece.

Como já podemos constatar, a situação do presidente não é tão simples como ele e seus eleitores pintam. Quem acha que o presidente pode peitar a Globo e sair ileso é ingênuo, utópico ou doido, sobretudo porque alguma culpa no cartório ele tem. Portanto, aviso aos capitães de primeira viagem: nunca, na história deste país, um político com telhado de vidro venceu uma guerra contra a Globo. Ou cedeu ou perdeu.

Big Brother Bolsonaro

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