Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


‘Animais na pista’ e ‘A fome de Lázaro’ atestam a potência da narrativa de curta duração

Cada narrativa cinematográfica demanda um formato específico. O curta-metragem, seja ficção ou documentário, busca sua eficiência na capacidade de síntese ao narrar ou expressar ideias sobre o mundo. Dois curtas-metragens paraibanos – ‘Animais na pista’ (Otto Cabral, 2021) e ‘A fome de Lázaro’ (Diego Benevides, 2020) – surpreendem não só pelo tema que tratam, mas pela eficácia narrativa. O primeiro, uma ficção, discute o lado obscuro do ser humano; o segundo, uma não-ficção, documenta a festa de São Lázaro numa comunidade do sertão paraibano.

O cinema começou com filmes de curtíssima duração (menos de um minuto) a partir de 1895. Só sete anos depois, em 1902, o prestidigitador francês Georges Méliès leva o cinema a uma aventura narrativa com ‘Viagem à Lua’. Com duração de 14 minutos, era o filme mais longo até então, o que instigou os demais cineastas da época a utilizar o cinema para contar histórias. Foi o caso do norte-americano Edwin Porter que estreia dois curtas em 1903: ‘A vida de um bombeiro americano’ e ‘O grande assalto do trem’ onde já verificamos sua preocupação com a continuidade visual. É D. W. Grifith, também estadunidense, quem vai aprimorar a narrativa cinematográfica com uma série de curtas de 10 a 20 minutos entre 1908 e 1911 até chegar ao seu primeiro longa ‘Judith of Bethulia’, em 1913.

Com a consolidação das narrativas de longa-metragem, imaginou-se que as narrativas curtas estavam fadadas ao desaparecimento, contudo, nos anos 1920, as vanguardas (impressionismo, dadaímo, expressionismo, futurismo entre outros “ismos” mais) se apropriam do cinema e se lançam à experimentação, demonstrando que não só de narrativas vive o cinema e trazendo à luz obras revolucionárias dos vanguardistas Fernand Léger (‘Ballet Mécanique’, 1924), Germaine Dulac (‘La coquille et le clergyman’, 1926), Marcel Duchamp (‘Anémic Cinéma’, 1926), Luis Buñuel (‘Um cão Andaluz’, 1929) e Salvador Dali (‘L’Age d’or’, 1930), entre outros.

Embora o cinema narrativo seja a forma dominante de produção, o curta-metragem ainda atrai diretores longa-metragistas. O exemplo recente vem do espanhol Pedro Almodóvar que surpreendeu o mundo com o lançamento em diversas plataformas do curta-metragem ‘Human voice’, sua primeira produção na língua inglesa. Com estreia na última edição do Festival de Veneza, o curta de 30min de duração é uma adaptação de uma peça do francês Jean Cocteau e traz a atriz britânica Tilda Swinton como uma mulher recém-abandonada pelo companheiro.

Voltemos aos curtas paraibanos – que na semana passada fizeram bonito na 49ª edição do Festival de Cinema de Gramado. ‘A fome de Lázaro’, documentário dirigido por Diego Benevides, foi reconhecido como o Melhor Curta-Metragem da mostra competitiva nacional e, de quebra, levou ainda o troféu de Melhor Direção de Arte (Torquato Joel). ‘Animais na pista’, ficção de Otto Cabral, por seu turno, foi agraciado com a Melhor Fotografia (Rodolpho de Barros) e Melhor Trilha Sonora (Eli-Eri Moura), concorrendo com filmes de mais oito estados.

Para discutir os limites entre a civilidade e a barbárie, Otto Cabral condensou, em uma única cena – um acidente de carro numa estrada ao anoitecer – sua reflexão sobre a capacidade humana de se deixar levar pelos sentimentos mais vis. Num belo plano-sequência (de fazer inveja a Orson Welles de ‘A marca da maldade’), embalado pela bela composição de Eli-Eri Moura, todo o drama é narrado em 10 minutos de enredo com apenas uma frase de diálogo. A montagem cirúrgica de Ely Marques disfarça um ou dois cortes do engenhoso plano-sequência.

O que ‘Amimais na pista’ põe na roda são questões cruciais do que chamamos humanidade. O que um acidente pode revelar da índole humana? Otto nos provoca com esse breve enredo (um fragmento de uma história potencialmente maior) a olharmos para nós mesmos e a questionarmos sobre nossos limites éticos. Numa narrativa curta e com a força de sua mensagem, é irrelevante sabermos mais do que nos é dado de seus personagens, até porque sua fotografia em claro-escuro de frenética intermitência (faróis e lanternas da ambulância e da polícia) não nos permite uma visualização mais clara da cena, exigindo do espectador uma atenção redobrada. O roteiro de Otto Cabral é uma adaptação livre do conto ‘Relato de uma ocorrência onde qualquer semelhança não é mera coincidência’, do escritor mineiro Rubem Fonseca (1925-1920).

‘A fome de Lázaro’, por sua vez, já chegou ao Festival de Gramado respaldado pela seleção e prêmios em importantes festivais no exterior: Vision du Réel, Suíça, e Mumbai Shorts International Film Festival (prêmio de Melhor Montagem), em 2020; Miradas Doc, 2021, em Tenerife, Espanha; no International Symbolic Film Festival, na Rússia (2021), onde foi agraciado com o troféu de Melhor Documentário; e no 10th Bangalore Shorts International Film Festival, na Índia, onde o filme foi reconhecido com o troféu de Melhor Fotografia. ‘A fome de Lázaro’ foi ainda selecionado para festivais do Reino Unido, Itália, França, Croácia e Colômbia.

Fundador da produtora Extrato de Cinema, na capital, o talento de Diego Benevides para a narrativa documental foi revelado no curta-metragem ‘A queima’ (2013), onde o diretor mistura realidade e fantasia para abordar o imaginário da população da zona canavieira. Com fotografia de Antônio Ternura e som de Nicolas Hallet, ‘A fome de Lázaro’ documenta um festejo religioso para revelar o imaginário e crença de uma comunidade rural no alto sertão da Paraíba. Sua narrativa é carregada de suspense que atiça no espectador a curiosidade sobre as pequenas ações e gestos do ritual da gente do lugar na preparação de algo importante que está para acontecer. Expectativa expressa na ansiedade dos cachorros à espera do banquete oferecido a São Lázaro, cuja revelação nos surpreende no final.

Para Ely Marques (in memorian)

 

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