Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


AmarElo documenta resistência do rapper Emicida na vida e na arte

No Brasil do neofascismo bolsonarista “é tudo pra ontem”. Esta é a mensagem urgente do documentário dirigido por Fred Ouro Preto e lançado pela Netflix a partir de um feito inédito: um show em dezembro de 2019 de um cantor da periferia, Emicida, trabalhando um gênero musical, o hip hop, historicamente escanteado de um templo da música clássica e do canto lírico, o Teatro Municipal de São Paulo. Emicida: AmarElo – É tudo pra ontem (2020, 1h29mim) tem o lendário concerto do cantor e compositor como fio condutor para um manifesto artístico e, sobretudo, político, onde ele expõe as mazelas do racismo e da intolerância no país.

Em parte, narrado em primeira pessoa, o que dá um tom autobiográfico ao documentário, o filme também lança mão de recursos do estilo participativo/interativo do cinema direto francês, surgido nos anos 1960 com o grupo francês de Jean Rouch, e, em alguns momentos, do estilo documental observacional dos cineastas norte-americanos Robert Drew e Richard Leacock que tentavam capturar a vida “enquanto ela acontecia.” No primeiro estilo, personagem e diretor interagem marcando a presença do realizador na obra – Emicida e demais atores e atrizes sociais depõem para a câmera. No segundo, há um distanciamento do diretor que busca esconder sua presença no ato de filmar. Os personagens agem “ignorando” a presença da câmera, a característica maior desse estilo.

Na sua narrativa em primeira pessoa, comum nos documentários autobiográficos tão em voga no momento, Emicida nos faz rememorar das históricas mazelas da sociedade brasileira: tardiamente libertamos nossos escravos; no chamado ciclo do café, usamos sem pudor a mão-de-obra escrava; levamos a cabo um horrendo processo de branqueamento lançando os ex-escravos a sua própria sorte para, em seguida, criminalizar a cultura negra e, por tabela, também a cultura indígena.

Apesar de ter a participação de cantores e artistas consagrados no documentário, a exemplo de Zeca Pagodinho, a cantora Pablo Vittar e a atriz Fernanda Montenegro, o forte de AmarElo está na presença de artistas negros no palco do teatro ou no estúdio de gravação: a cantora Majur, Mc Tha, o músico Carlinhos 7 Cordas, o cantor Mateus Aleluia, a cantora Fabiana Cozza, o músico da velha guarda, Wilson das Neves, baterista e compositor, com quem Emicida fez uma meteórica parceria até a morte do baterista em 2017. Um dos momentos emblemáticos do show é a parceria com as cantoras trans Majur e Pablo Vittar no palco do Municipal.

A denúncia contra o racismo não descola do discurso de Emicida ao longo do documentário porque o músico enfatiza o tempo todo a resistência cultural negra com o samba e o hip hop. Atualmente, com a criação de um mercado alternativo à margem da grande indústria fonográfica, o hip hop se atualiza na fusão com outros gêneros musicais como o samba, que ampliou suas potencialidades estéticas. E reconhece o poder do ambiente digital na difusão do movimento cultural da periferia. A cidade de São Paulo e sua periferia chegam a ser personagens do filme através de suas imagens ou das falas de alguns personagens.

O gênero documentário, diferente de uma reportagem, não deve se inclinar à neutralidade. A direção de Fred Ouro Preto tem plena consciência disso ao dar voz a Emicida, que se torna, de fato e de direito, o porta-voz da periferia, território onde o artista veio à luz e foi criado. O músico-ativista fala com conhecimento de causa dessa realidade e da consciência de seu papel, pois “Tudo que nós tem é nós” (título e verso de uma de suas músicas). Emicida se arvorou na missão de “cada vez que pegar numa caneta devolver a alma para cada um de meus irmãos.” O rapper faz referência a uma frase na pia batismal do Museu da Escravidão em Angola que diz que negro não tem alma.

Emicida resgata na sua narrativa feitos da gente negra de São Paulo esquecida pela história oficial, aquela que aprendemos na escola e escrita por mãos brancas. Com imagens e documentos históricos, sabemos da existência de Tebas, escravo e primeiro arquiteto negro da metrópole paulistana, que imprimiu um feitio novo às obras arquitetônicas da capital e a quem não foram dados os créditos. Por isso a escolha de Emicida do Teatro Municipal, como toda obra na cidade, erguida por mãos pretas. E resgata a importância de uma voz em favor da afirmação negra nas últimas décadas, a historiadora Lélia Gonzalez, referência mundial na luta pelos direitos civis, a exemplo de Angela Davis nos Estados Unidos.

Sobrevoando pela história da cultura negra no país, esse documentário-musical usa imagens de arquivo para contribuir com a trajetória do samba, uma marca singular da nossa cultura autêntica e por muito tempo discriminado pela elite branca. Desfilam testemunhos de Ismael Silva que explica o surgimento do termo Escola de Samba, numa oposição à Escola Normal existente no bairro do Estácio no Rio. Emicida passa pelas ideias dos modernistas – o samba se torna moderno com os Oito Batutas, liderados pelo maestro Pixinguinha, em lendária apresentação em Paris no mesmo ano, 1922, em que foi lançado o manifesto modernista (onde? No palco do mesmo Teatro Municipal), redundando na valorização da arte brasileira mestiça e no conceito de brasilidade.

O palco do Teatro Municipal de São Paulo é simbólico para o concerto de Emicida, curiosidade, enfatizada em diversos momentos pelo rapper, que defende a tese de que o samba é o Brasil que deu certo e que está na raiz do hip hop. E homenageia, em breve aparições, Os originais do Samba, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Heitor dos Prazeres, Clara Nunes, Riachão, Jovelina Pérola Negra, Jackson do Pandeiro, Jair Rodrigues, que, segundo ele “já eram hip hop antes de nós existirmos”. Frente à violência negacionista que vivemos no Brasil de agora por parte de gente que minimiza os atos nefastos da Ditadura Militar de 1964 e dos genocídios indígena e negro que, aliás, nunca deixaram de existir, o refrão da canção Sujeito de Sorte, de Belchior (“Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”), repetida diversas vezes por diferentes vozes, faz muito sentido nesses tempos sombrios de fascismo institucionalizado. Em tempo: esse verso é atribuído ao paraibano José Limeira, o poeta do absurdo, publicado antes da gravação da música do cearense.

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