Nelson Barros

Nelson Barros é psicoterapeuta e escritor.


A Viagem Fantástica

Minha amiga Daniela botou leite condensado no molho “à bolonhesa”.

Não, ela não estava testando uma receita nova de macarronada. Foi efeito quarentena.

Eu mesmo, essa semana, fui fazer uma vitamina de banana, botei a casca no liquidificador e a fruta na lixeira.

Tenho escutado muita gente reclamando da falta de libido. Sugiro um dia sem televisão, pra ver se dá uma melhorada. Não dá pra ter desejo, com o cheiro da morte rondando por perto. E se você assiste alguma coisa dos protagonistas dessa novela chamada Brasil, nesse momento tenebroso, aí o negócio desanda de vez. É a antítese do tesão, da vida, da pulsação vibrante e feliz do prazer.

A lista de filmes e livros assistidos e lidos tá bem “pobrinha”. E olhe que sou leitor voraz, daqueles que se sentem orgulhosos de ler vários ao mesmo tempo.

Quando a gente entrou nessa quarentena, parecia que ia ser uma pequena aventura dentro de casa. Como um filme que vi quando era menino, “A Viagem Fantástica”, com a maravilhosa Raquel Welch, “bombshell” da época. Nele, um grupo de cientistas é miniaturizado, para fazer uma jornada dentro do corpo humano. Alguém aí da minha turma vai lembrar desse filme.

Voltando… a aventura para dentro da casa seria a chance de arrumar pendências, de ler, finalmente, os livros em fila de espera, filmes e séries idem. Pois bem, aqui em casa está assim: uma desarrumação que já dura setenta e poucos dias, sem hora pra acabar. O cantinho organizado para as atividades físicas, abandonado que só os parques da cidade. Vez em quando um filme. E livro, só estou dando conta daqueles com textos curtinhos. Ou de arte, por que têm mais “figurinha que letra”.

Ganhei 04 quilos e isso pode ser caminho sem volta, sobretudo se decidir experimentar receitas como a do “spaghetti alla bolognese con latte condensato”, da minha amiga italiana.

A cozinha tem sido o lugar mais criativo da casa. É isso mesmo, não se culpe se está igual na sua. Num momento de tão poucas gratificações, comer ocupa lugar de honra nesse “ranking”, depois de dormir.
A outra coisa, rede social, confesso que não estou conseguindo muito. Vou ali, dou uma olhada, respondo um ou outro amigo, mas logo fico “empanzinado”. Deve ser porque o trabalho on-line me deixa muito tempo na telinha. A aventura pra dentro de casa tornou-se, rapidamente, monotonia. Agora, as faltas estão se amplificando, porque está demorando mais que o previsto. Nada de aparecer o aviso de chegada.

Saudades das pessoas, do boteco, das viagens, da praia. Medo de adoecer, de perder gente querida, de estar perdendo tempo. Ressaca por ter bebido numa terça-feira, de estar sem atividade física, de dormir de tarde e ficar acordado de noite. Saturado de ficar tempo excessivo dentro de casa e de ter que conviver tanto comigo. Sim, é isso mesmo, eu gosto da minha companhia, mas a gente cansa até da gente. É normal. Um dos nossos filósofos maiores já dizia: “é impossível ser feliz sozinho”. Acredito nisso. Eu sou pouco. Muito do que sei de mim é dito pelo outro. Nunca fui muito desse papo de “a gente tem que se amar, para ser amado pelos outros”. Autoestima que fala, né? Tá errado? Tá não. Mas nesse caso sou polígamo. Gosto de gostar de mim e adoro amar e ser amado pelos outros. E mais, amor pra mim é físico, tem que ter chamego, tem que ter beijinho, tem que ter abraço e tem que ter gente provando receita nova na cozinha… mas não tenham medo, que o leite condensado eu vou usar pra fazer pudim.

Ai, esse trem que não chega…

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