Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


A realidade recriada em “Querência”, documentário dramatizado de Helvécio Marins Jr.

A palavra querência diz respeito ao lugar onde um animal foi criado e se acostumou a pastar, para onde sempre vai querer voltar se dali for afastado. No filme Querência, de Helvécio Marins Jr. (2020, 93min, Netflix), com estreia mundial na 69ª Edição do Festival de Cinema de Berlim, o sentido se estende igualmente aos seus personagens moradores da região noroeste de Minas Gerais, apegados à terra onde nasceram e fincaram profundas raízes, mesmo quando são obrigados ao desterro.

Querência está indexado como um drama. A indexação é obrigatória para orientar os espectadores para qual gênero de filme vão assistir, seja em salas de cinema, em plataformas de streaming, exibição na televisão ou em festivais de cinema. Misto de ficção e documentário, o filme de Marins Jr. foi selecionado para a Mostra Forum da Berlinale ao lado de mais duas produções brasileiras (A rosa azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, e Chão, de Camila Freitas). A mostra é dedicada a filmes experimentais e considerados ousados nas suas propostas estéticas e de linguagem.

O apagamento da fronteira entre filmes de ficção e não ficção tem sido a tônica em obras que buscam a experimentação. Não custa lembrar, aliás, que o documentário veio à luz recorrendo à encenação. Em Nanook, o esquimó (1922), Robert Flaherty escolheu como forma de abordagem da vida cotidiana dos inuítes, povos do norte do Canadá, Alaska e Groelândia, estruturar sua narrativa buscando o máximo de impacto dramático empregado nos filmes de ficção.

Com exceção dos documentários experimentais “poéticos” das vanguardas dos anos 1920, o gênero perpassou três décadas no seu estilo “clássico” (educativo, expositivo, etc.) com uma narração em voice over de um locutor onisciente e cujas imagens comprovam um argumento previamente existente. Apesar da existência de experiência de som sincrônico com entrevistas em 1935, é o francês Jean Rouch que vai chacoalhar o estatuto do documentário no final dos anos 1950.

A tendência contemporânea do documentário é não se enquadrar em compartimentos rígidos. O realizador, no entanto, não pode escapar de indicar o gênero de seu filme. Para Helvécio Marins Jr., Querência é um drama. A variada tipologia para o cinema documental, inevitavelmente, se ancora no termo ficção: docudrama, documentário romanceado, documentário-ficção, ficção documentada, entre outros. Todo esse introito é para situar o leitor/espectador na proposta de Querência. Seu protagonista Marcelo (Marcelo di Souza) é um vaqueiro que deseja ser locutor de rodeios e mostrar os versos que cria inspirados nesse universo. Chamamos os personagens de um filme documental de “atores sociais”, personagens reais que encenam suas próprias histórias.

Marins Jr. é mineiro e natural da mesma região de Marcelo di Souza, onde costuma frequentar e onde o conheceu. A história narrada em Querência é certamente parte da história real de Marcelo modulada com elementos ficcionais. A personagem da irmã de Marcelo, Márcia Rosa, é real, como seus amigos Kaic Lima (criador de versos) e Carlos Dalmir (vaqueiro). Não importa saber o que no enredo de Querência foi calcado fielmente na realidade ou criado para a estrutura dramática do filme. Márcia Rosa, por exemplo, mora no Rio de Janeiro e vem à Unaí, na região Norte de Minas, visitar o irmão e lhe dar apoio psicológico. Marcelo vivenciou a violência de um roubo (real) de mais de cem cabeças de gado da fazenda onde trabalha.

De vaqueiro a locutor de rodeios, acompanhamos a jornada de Marcelo em situações prosaicas do cotidiano: no trabalho de levar o gado ao pasto, laçar animais fujões e marcar os bichos a fogo e ferro, signos da constituição da identidade masculina no campo. Seu cotidiano é quebrado com a visita da irmã com quem conversa sobre o traumático assalto. Arraigado à terra onde nasceu e se criou, Marcelo não se vê morando numa cidade grande, no entanto, as cenas do episódio do roubo são mostradas em flashbacks e vão assombrar seus sonhos.

O enredo é construído com cenas banais da vida no campo, os planos longos nos convidam a uma imersão nesse mundo pachorrento. Aliás, a paisagem é também personagem do filme. Marins Jr. faz opção por uma direção com tomadas à distância usando lentes de longa distância focal (teleobjetivas), produzindo imagens planimétricas, o que achata as imagens e coloca fora de foco tudo que está posterior à ação principal, além de fechar o campo de visão. Essa estratégia de tomada em telefoto é usada com frequência, tanto nas cenas noturnas dos rodeios e do assalto ao curral, com predominância de uma bela luz dourada das lâmpadas de tungstênio, como também nas cenas onde os personagens improvisam suas falas (a direção de fotografia é de Arauco Hernandez Holz). Essa técnica é um recurso providencial para quem trabalhas com não atores, evitando a proximidade de uma câmera inibidora – uma marca de estilo do diretor taiwanês Hou Hsiao-hsien de A cidade das tristezas (1989).

Numa dessas cenas, Marcelo bebe num bar com amigos que ironizam o pedantismo da gente da cidade ao chamar aquele momento de lazer de “repiau” (happy hour). A câmera, mantida à distância, permite esse momento de espontaneidade apesar da ciência da sua presença. A música e desenho de som do Grivo é outro destaque do filme. A velha canção Meu primeiro amor, cantada por Cascatinha e Inhana, em dois momentos do filme, ilumina a paisagem mineira. Esse ritmo arrastado da vida no campo foi representado também em Girimunho (2012), filme anterior do diretor, em parceria com Clarissa Campolina, onde usam igualmente a mesma estratégia de colocar personagens e intérpretes em cena. Querência foi também selecionado para o Festival Internacional de Jeonju de 2019, um dos três maiores da Ásia, onde recebeu o prêmio de melhor filme.

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