Angélica Lúcio

Angélica Lúcio é jornalista, com mestrado em Jornalismo pela UFPB e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Atualmente, atua na Comunicação Social do HULW-UFPB/Ebserh como jornalista concursada.


A quem serve o dedo indicador da Wikipédia?

No dia 3 de abril, escrevi um artigo com o título “Wikipédia não tem legitimidade  para dizer quem é ou não uma fonte confiável”.  Após o texto também ser publicado no espaço que assino no site Parlamento PB, o administrador da Wikipédia em português, Luís Almeida, entrou em contato comigo para questionar informações que considera equivocadas. De forma geral, ele afirma que os websites definidos como fontes não confiáveis “são apenas para uso nos artigos da Wikipédia”. No texto que escrevi, citei que os veículos Brasil 247, DCM, revista Oeste e Jovem Pan seriam classificados sumariamente como “fontes não confiáveis”, conforme divulgado pelo jornal O Globo.

Por e-mail, o representante da Wikipédia reafirmou que a identificação de “fonte não confiável” só vale para uso interno. “Não são para o resto da enciclopédia nem são nenhuma tentativa de tachar seja o que for fora da Wikipédia. Quanto ao ‘sumariamente’, não há nada de sumário. Qualquer usuário pode fazer uma proposta, e essa proposta é discutida por vários usuários durante o tempo que for preciso”.

De acordo com Luís Almeida, algumas discussões sobre o fato de uma fonte ser ou não confiável podem durar dois meses ou mesmo três anos. “Na Wikipédia tomamos decisões por consenso, é um aspecto da política seguida pelo website. Apenas quando não existe consenso, e apenas nos casos previstos pelas regras, é que se avança para uma votação. Os websites citados como fonte não confiável foram incluídos na lista através de consenso entre vários usuários, cuja discussão não foi, nem de perto nem de longe, sumária”.

Como tive algumas dúvidas ao receber o e-mail do administrador da Wikipedia em português, enviei algumas perguntas para Luís Almeida. Dado o espaço limitado da coluna, não trago todas as respostas aqui, mas apenas alguns trechos:

    • A Wikipédia decidiu desde o início quais fontes podem ser usadas ou não nos seus próprios artigos. “Por exemplo, não podem ser usados artigos da própria Wikipédia como fonte. Ou seja, nós mesmos consideramos a Wikipédia uma fonte que não pode ser usada”;
    • As decisões por consenso são tomadas por todos os usuários que quiserem participar. Ninguém é proibido de participar. Qualquer usuário ativo pode participar livremente do consenso. “Não existem conselhos na Wikipédia em português, pois a opinião de ninguém tem mais valor que a do outro: todas as opiniões têm o mesmo peso, o que conta no fim são os argumentos utilizados”;
  • Sobre fontes não confiáveis, o Brasil 247 foi sugerido por um usuário, e 11 editores participaram da discussão. O DCM foi sugerido por um usuário, e 16 pessoas participaram da discussão. A Jovem Pan foi sugerida por um editor, e sete pessoas participaram da discussão; a revista Oeste foi sugerida por uma pessoa, e nove participaram da discussão 
  • Ao defender a legitimidade do site para tachar uma fonte como não confiável, Luís Almeida se apoia no fato de a Wikipédia ser uma enciclopédia privada. “Qualquer website define que coisas usa e publica. Qualquer jornal define que notícia publica e que fontes usa. Então, como entidades privadas, temos o direito a definir as nossas próprias regras e as nossas linhas vermelhas. Fake news não. Não aceitamos”, pontua Luís Almeida. 

Ao encerrar minha coluna anterior sobre a Wikipédia, afirmei que o site não tinha condições ou prerrogativas para definir quais seriam as fontes confiáveis (ou não) na mídia brasileira.  Sobre isso, Luís Almeida reforça que “a Wikipédia não define quais são as fontes confiáveis (ou não) nos veículos do Brasil, visto que a lista seria apenas para uso interno. Li todos os argumentos que me foram enviados, mas mantenho minha opinião. Não vejo legitimidade na enciclopédia eletrônica para a criação de índex de fontes, seja para uso interno ou externo. Na guerra de narrativas que o Brasil vive, questiono: a quem serve o dedo indicador da Wikipédia?  

(…)

A quem interessar, abaixo seguem perguntas  e respostas na íntegra:

  1. Por que a Wikipédia decidiu identificar certas fontes como não confiáveis?

R: A Wikipédia decidiu desde o início da sua existência que fontes podem ser usadas ou não nos seus próprios artigos. Por exemplo, não podemos usar artigos da própria Wikipédia como fonte. Ou seja, nós mesmos consideramos a Wikipédia uma fonte que não pode ser usada. Uma fonte não fiável, por exemplo, é o website Breitbart dos Estados Unidos, aquele website de extrema-direita que apoiada o Trump e disseminada fake News por todo o lado. Fontes assim não são permitidas para referenciar artigos. Os artigos da Wikipédia não são perfeitos, mas tentamos que haja uma qualidade mínima. Não queremos fake news na wiki. 

  1. Em relação ao trecho “Na Wikipédia tomamos decisões por consenso”, gostaria que o senhor esclarecesse por quem são tomadas tais decisões. Trata-se de um conselho? Composto por quantas pessoas?

R: As decisões por consensos são tomadas por todos os usuários que quiserem participar. Ninguém é proibido de participar. Todo o usuário activo, que são quase 10 mil, podem participar livremente do consenso. Não existem conselhos na Wikipédia em português, pois a opinião de ninguém tem mais valor que a do outro: todas as opiniões têm o mesmo peso, o que conta no fim são os argumentos utilizados. Por isso somos contra conselhos de usuários que têm opinião mais valiosa que a dos outros. Ali, somos todos iguais.

  1. Em sua mensagem, o senhor afirma que “os websites citados como fonte não confiável foram incluídos na lista através de consenso entre vários usuários, cuja discussão não foi, nem de perto nem de longe, sumária”. Quantos usuários enviaram propostas referentes aos sites que citei na coluna, notadamente Brasil 247, DCM, Revista Oeste e Jovem Pan? De forma geral, o que tais usuários alegaram?

R: O Brasil 247 foi sugerido por 1 usuário, e participaram 11 editores na discussão (a discussão esteve aberta por 7 meses). O DCM foi sugerido por 1 usuário e participaram cerca de 16 pessoas (a discussão esteve aberta por 2 meses). A Jovem Pan foi sugerida por 1 editor e participaram 7 pessoas (a discussão esteve aberta por 2 meses).Revista Oeste foi sugerida por 1 pessoa e participaram cerca de 9 pessoas (a discussão esteve aberta por 10 meses). Como pode ver, apesar de as discussões estarem aberta por meses, nem sempre o assunto desperta o interesse de mais gente para participar. Ainda assim, participem 10 ou 1000 pessoas, as discussões têm que ser feitas e encerradas consoante o consenso a que se chega.  

  1. O senhor explicou que “a Wikipédia não define quais são as fontes confiáveis (ou não) nos mediado Brasil. A lista de fontes não-confiáveis é para uso interno da Wikipédia, afectando apenas os artigos e nada mais”. Quais critérios são utilizados para se definir uma fonte como confiável ou não?

R: Os critérios são os argumentos lançados. Existem dois tipos de argumentos válidos: os argumentos que assentam nas regras da própria wiki, e os argumentos que apresentam provas, evidências de fake news, exemplos de notícias, outros tipos de argumentação, etc. Se alguém chegar ali e disser “apoio que website X seja considerado fonte não confiável porque eu não gosto dele” então esse argumento nem sequer é considerado válido, pois não se pode argumentar com base em gosto pessoal.  

  1. Por que devemos acreditar que a Wikipédia tem legitimidade para definir uma lista de fontes não confiáveis, mesmo que seja para uso interno da Wikipédia?

R: Porque a Wikipédia é uma enciclopédia privada. Qualquer website define que coisas usa e publica. Qualquer jornal define que noticia publica e que fontes usa. Com certeza, espero eu, você e o seu jornal não publicam propaganda do Kremlin nem propaganda de websites de extrema-direita como o Breitbart do Trump. Então, como entidades privadas, temos o direito a definir as nossas próprias regras e as nossas linhas vermelhas. Fake News não. Não aceitamos.

  1. A propósito: quando o senhor utiliza a expressão “uso interno”, mesmo que informe que tal medida afeta apenas os artigos “e nada mais”, não está colocando em dúvida, para toda a sociedade, a credibilidade dos veículos citados? 

R: Quando digo para uso interno, digo com toda a certeza que a esmagadora maioria da sociedade não sabe disso. Você mesma nem sabia disso. É uma página e uma lista que só quem edita a Wikipédia sabe que existe, e acredite, a maior parte dos usuários nem sabe que ela existe. A popularidade e a fama de tal página se deve apenas ao facto de certos websites estarem a usar isso para se vitimizarem com base em argumentos falaciosos e fake news. Preferia que a Wikipédia ocultasse que fontes pode ou não usar nos artigos? Não prefere que seja tudo público e transparente? 

  1. O senhor deseja esclarecer algo mais?

R: Já esclareci o que pretendia, e agradeço imenso a vossa disponibilidade. Continuarei sempre, em qualquer altura e circunstância, disponível para esclarecer o que quer que seja, e providenciar o link para qualquer página da Wikipédia para que possam confirmar a transparência e como as coisas funcionam.

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