Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


A homoafetividade adolescente, sem glamour, no filme argentino ‘El cazador’

O cinema argentino continua em alta e nos surpreende com nomes e títulos não tão conhecidos. É o caso de ‘El cazador’ (2020, 101min), filme escrito e dirigido por Marco Berger com estréia mundial em janeiro de 2020 e agora disponível na Netflix. A homoafetividade deixou há tempos de ser tabu nas abordagens cinematográficas. Estamos distante dos tempos do Código Hays (1930-1968), uma série de normas que controlava e censurava a produção hollywoodiana de cinema, determinando o que não podia ser visto ou mencionado nas telas. A homossexualidade, considerada uma perversão, era o alvo maior da tesoura moralista dos políticos (o caso de Will H. Hays) e produtores estadunidenses.

No Brasil, raros eram os filmes que tratavam da homoafetividade de forma respeitosa, pois, no geral, o gay e a lésbica eram representados de forma ora caricatural e debochada, ora numa perspectiva enviesada, considerando-os pervertidos, e os restringindo à galeria de personagens maus ou de caráter duvidoso. ‘El cazador’ (assim mesmo preservando o título original) diferencia da maior parte do cardápio da Netflix de temática LGBTQIA+ por não carregar nas tintas as relações homoafetivas, nem tampouco tratar o tema de forma negativa, com os costumeiros finais trágicos que marcavam esse tipo de história de amor no cinema.

Ponto para Marco Berger, que relata o despertar do adolescente Ezequiel (Juan Pablo Cestero), 15 anos, para o desejo homoafetivo e a sua dificuldade inicial de por em prática esse desejo, colecionando recusas de amigos em casa e de estranhos em banheiros públicos. Sua gana será enfim saciada ao conhecer Mono (Lautaro Rodriguez), um pouco mais velho do que ele, com quem vai se realizar plenamente. Essa relação, aparentemente tranquila, levará Ezequiel a um dilema moral, como anuncia a sinopse do filme.

Este é o meu primeiro contato com uma obra da filmografia do portenho Marco Berger (45 anos), por isso só posso fazer considerações sobre o estilo desse filme. Berger se graduou na Universidade Cine Porteño de Buenos Aires e, com o curta-metragem ‘El reloj’ (2008), foi selecionado para o ambicionado festival de cinema de Cannes. Depois de mais dois curtas, realizados naquele mesmo ano, incursiona na narrativa de longa-metragem com ‘Plan B’ (2009), selecionado para o Festival de Roma. Berger vai consolidar sua carreira com os longas ‘Ausente’ (2011), premiado no Festival de Berlim, ‘Mariposa’ (2015) e ‘Taekwondo’ (2016).

Neste ‘El cazador’, o diretor exercita uma narrativa que fica próxima de um design de história que o teórico de roteiro Robert Mckee denomina de ‘minitrama’, já que utiliza a estrutura de uma “arquitrama” da narrativa clássica (a saber: protagonista bem desenvolvido e com um objetivo definido que norteará toda a trama, arquitetada com relações de causa e efeito evidentes e um desfecho fechado, verossímil e irreversível. Num design de história que Mckee denomina “minitrama”, o roteirista mantém ainda a estrutura de uma narrativa clássica, amiúde associada ao cinema hollywoodiano, contudo, fortemente presente em cinematografias de todo o mundo.

Numa trama minimalista, o narrador utiliza os mesmos elementos de um design clássico, mas os reduz, sem que a trama deixe de existir como acontece no design mais radical de uma “antitrama”. Em ‘El cazador’, Marco Berger conta uma história. O jovem Ezequiel, como todo o ímpeto de um adolescente, quer sexo, mas também afeto, e age nesse sentido, freqüentando lugares em busca de parceiros. O diretor conduz sua narrativa de forma lenta, construindo uma atmosfera assentada em cenas com mais silêncios do que diálogos, imprimindo suspense desde a cena inicial.

O clima de expectativas sugerido pela música em diversas ações dos personagens, somado às lacunas dos diálogos, nos inquieta por vislumbramos algo de ruim que possa acontecer aos jovens amantes. Desconfiamos de Chino (Juan Barberin) que empresta sua casa de campo a Mono, namorado de Ezequiel. Desconfiamos do próprio Mono. Berger ao longo do filme enfatiza essa atmosfera de incerteza, mergulhando o espectador numa constante inquietude. Com ‘El Cazador’, o cinema argentino demonstra que pode desviar de uma narrativa mainstream sem entediar o público.

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