Darren Aronofsky não faz cinema para manter o espectador na sua zona de conforto. Seus filmes são desconcertantes e deliberadamente buscam provocar profundo incômodo no público, sobretudo com os temas que escolhe e a abordagem que emprega na sua concepção. Aqui cito o exemplo de ‘Cisne Negro” (Black Swan, 2010), a história de Nina (Natalie Portman), uma bailarina e sua rivalidade com a companheira de dança cuja obsessão tamanha faz emergir o lado obscuro da pprotagonista. ‘A Baleia’ está em cartaz em João Pessoa no Centerplex do Mag Shopping.
Em ‘A Baleia’, Aronofsky trabalha um drama, digamos psicológico e social, que não deixa de ter um certo toque de horror – o medo que nos provoca a ideia de chegar a uma condição semelhante ao do protagonista Charlie (Brendan Fraser, numa interpretação comovente), um professor de literatura que ministra cursos à distância sem que os alunos o vejam preso a um sofá, com quase incapacidade de mobilização, fruto de uma obesidade mórbida. Um drama psicológico porque os conflitos que movem a história giram em torno da entrega de Charlie à sua condição; e social porque toca a questão da aversão e preconceito à obesidade ressaltados na reação dos demais personagens.
‘A Baleia’ é um filme cuja história se passa inteiramente dentro de um apartamento sob uma iluminação baixa (com fotografia de Mathew Libatique) e raríssimas cenas externas. Estas são algumas das características que estruturam o gênero terror. Enfrentar duas horas de duração de um filme que narra o sofrimento de um personagem, aparentemente sem vontade de se mover para uma mudança de sua condição, seria uma tortura se o roteiro de Samuel D. Hunter, baseado em uma peça de sua autoria, não envolvesse conflitos do próprio personagem consigo mesmo e com os outros com quem se relaciona.
Interagem com Charlie, com maior ou menor frequência, as personagens Liz (Honk Chau), amiga inseparável, a filha dele adolescente, Ellie (Sadie Sink), o missionário Thomas (Ty Simpkins) da igreja Nova Vida, que insiste em catequizar Charlie, sua ex-mulher Mary (Samantha Morton), além do entregador de pizzas, que nunca é visto e que se faz presente em cena pela voz. O título do filme vem de um conto que Charlie não se cansa de citar e que faz alusão ao romance ‘Moby Dick’ de Herman Melville e não do seu enorme peso e aparência de Charlie, como pode facilmente sugerir. Os conflitos de Charlie se dão pela culpa de ter deixado a filha para viver com outro homem e de sua obesidade (conflito consigo mesmo); e com os demais personagens a sua volta pelo comovente zelo de Liz com sua saúde, com Ellie pelo rancor que a filha tem por ter sido abandonada na infância pelo pai homossexual; e finalmente com a ex-mulher Mary, por motivos óbvios.
Roteiros baseados em peças teatrais nas suas traduções cinematográficas sempre implicam um único cenário/locação, ou no máximo dois ou três, e poucos personagens. Lembremos aqui de ‘Festim Diabólico’ (Rope, 1948, de Alfred Hitchcock) e ‘As lágrimas amargas de Petra Von Kant’ (Die Bitteren Tränen der Petra Von Kant, 1972, dirigido por Rainer Werner Fassbinder) que também se passam no espaço exíguo de um apartamento. Aronofsky cria um ambiente angustiante não só pela ausência de sol – mesmo quando a ação se passa na varanda da casa com dias eternamente nublados e nuvens ameaçadoras – mas pela iluminação fraca nos interiores sempre com lâmpadas acesas, mas sem nenhum contrate de luz e sombra. O som da natureza se faz presente enfatizando sobretudo o conflito de Charlie e Ellie. Esse aspecto da mise-en-scène contribui para envolver o espectador no universo mórbido de sua história, sem maniqueísmo, com personagens nem bons e nem maus, apenas humanos com toda sua complexidade.