Carlos Ruiz

Carlos Enrique Ruiz Ferreira é mestre e doutor pelo Departamento de Ciência Política da USP; pós doutor pelo Departamento de Filosofia da USP; professor doutor associado de Relações Internacionais da UEPB. Atualmente é coordenador geral do Centro de Estudos Avançados em Políticas Públicas e Governança (CEAPPG) e coordenador do curso de Relações Internacionais da UEPB.
Carlos Ruiz

2024 e o mundo em transição

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A Ordem Internacional segue em transição e o ano de 2024 promete a costumeira turbulência dos últimos tempos. A China continua a despontar como uma superpotência no mundo, contribuindo para uma mudança significativa no sistema internacional. O crescimento econômico e os avanços tecnológicos fazem o diferencial, com repercussões para o porvir de uma nova realidade nas relações de poder bélico mundial. Não se deve descuidar das informações de que por volta de metade do comércio da China já é realizado em yuan e que a infraestrutura tecnológica e as bases militares overseas estão em plena expansão.

A colaboração crescente entre Rússia, Irã e China, em torno de temas como o petróleo, a Faixa de Gaza, a guerra na Ucrânia e a ojeriza ao Tio Sam, fazem países tão diferentes se alinharem, mostrando como a política de alianças e a balança de poder continuam sendo conceitos e estratégias pertinentes no mundo de hoje.

Os sinais da crise dos Estados Unidos da América já foram visualizados há anos, mas o gigante mantém-se em pé, em que pese sua desagregação sócio-política interna e sua dívida nacional de mais de US$ 30 trilhões. O fenômeno Trump preocupa, em ano de eleições presidenciais. Queiramos ou não, a Ordem Internacional ainda é bastante determinada pela política exterior do gigante ofegante. Ganhando ou não o republicano, o fenômeno da ultradireita está posto como um dos mais cruéis paradigmas do século XXI. No Brasil não é diferente. Ainda que os fatos nus e crus demonstrem a perversidade, o machismo, o racismo, a misoginia, o eugenismo e, ao que tudo indica, a criminalidade do capitão, parcela considerável da população segue apoiando o chamado bolsonarismo.

Por seu turno, a Europa não supera seu drama shakespeareano, do ser ou não ser, desde que o Reino Unido deixou a União Europeia. A região, à exceção de alguns países, segue em grande medida a reboque dos desígnios dos EUA, passa por crises econômicas e sociais que aos poucos fragmentam a belle époque da filosofia e da práxis do estado de bem-estar social. Pior: a crise na democracia com a emergência de forcas de ultradireita, com requintes fascistas e xenófobos. A guerra na Ucrânia, de uma forma ou de outra, ajudou a Europa a encontrar pontos comuns, assim como os desafios da economia verde. Mas nada que seja muito bem catalisado politicamente, pela inexistência de lideranças expressivas de cunho supranacional.

No que tange aos conflitos mundiais, seguimos com o flagelo na Ucrânia, que pode se explicar, pelo menos em parte, pela tensão de uma espécie de “nova guerra fria” que, em certa medida, se iniciou logo nos anos 90 com a fragmentação da Iugoslávia. A OTAN de um lado, liderada pelos EUA, seu hegemon, e a Rússia de outro (com seus possíveis aliados).

Mas a guerra da Ucrânia perdeu lugar nos holofotes do mundo para o conflito na Palestina. O mundo assiste perplexo os horrores cotidianos perpetrados pelo estado terrorista de Israel na Faixa de Gaza. Uma das regras de ouro da ética e do direito (o internacional também), a proporcionalidade, foi conspurcada de forma atroz. A palavra genocídio pode ser mais uma vez empregada num fenômeno contemporâneo, rebaixando a humanidade a níveis soturnos. Por outro lado, até os mais conservadores, percebem que o Estado Palestino precisa ser reconhecido pela comunidade internacional. Não obstante, é difícil acreditar que no ano de 2024 se encontrem e sustentem acordos sobre a região. Ao contrário, a escalada do conflito, com a entrada de outros atores, parece ter a maior probabilidade.

A Organização das Nações Unidas (ONU) prossegue mostrando suas enormes fragilidades, que podem ser explicadas, em certa medida, por um Conselho de Segurança em que poucos países (cinco, para ser mais exato) decidem a vida mundial. Os cinco vitoriosos da Segunda Guerra Mundial dispõem do poder de veto, logo, são eles quem decidem quando e onde haverá (ou não) missões ou operações de paz. A Reforma da ONU, que se anuncia há algum tempo e prevê uma maior representatividade no Conselho de Segurança (incluindo países do chamado Sul Global ou os países em desenvolvimento), é adiada ano após ano. A luz no fim do túnel parece ainda distante de se alcançar.

Do ponto de vista histórico, nosso século XXI continua sendo enquadrado no designativo “período pós Guerra Fria”. Mas quem diria que esse período seria tão turbulento, tão instável e tão díspar? A busca pela Paz, ainda que não a Paz Perpétua, brilha como a necessária utopia, o grande imperativo dos tempos atuais, seguida pela busca da Democracia e Justiça Social.

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