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Leda fará falta. Com certeza

Sem tv por assinatura, internet, playtoy, séries e toda essa modernidade do entretenimento, assistir à tv aberta era a opção para quase toda a minha geração. Poucos canais nos obrigavam a ficar em frente à tela mesmo com chuviscos, ainda quando a imagem ainda era em preto e branco. Não porque os aparelhos em cores não existissem, mas porque a família não poderia arcar com  o custo daquele objeto mágico. Os mais ostentadores ousavam colocar um papel colorido em frente ao aparelho para dar a ilusão de que a televisão era colorida.
 
Não havia muitas opções. Isso não queria dizer, contudo, que as disponíveis não fossem ótimas. 
 
Quando criança, assistia costumeiramente ao "Sem Censura" apresentado por Leda Nagle na TV Brasil, mesmo com um sinal que oscilava entre o ruim e o péssimo. Esperava, àquela época, pelas entrevistas com os artistas da moda. Enquanto isso, nem percebia o quanto o programa me informava sobre tantos outros assuntos e como ela, com sua elegância e timing equilibrado entre afabilidade e profissionalismo, também me ensinava sobre o possível diálogo que Cremilda Medina trataria décadas mais tarde em livro sobre a entrevista, leitura básica para os alunos de Comunicação.
 
Em dezembro de 2016, a TV Brasil demitiu Leda Nagle, 20 anos à frente do programa. O contrato dela termina no dia 5 de janeiro, mesma data de seu aniversário. A apresentadora ironizou que a notícia foi "um presente antecipado". De grego. E passou a esvaziar as gavetas.
 
A TV Brasil emitiu uma nota na qual morreu de elogiar a apresentadora, alegou a necessidade de reduzir custos, mas não desmentiu nem confirmou a demissão. É a cara do governo Temer, que não quer enfrentar o desgaste, mas promove o desmonte da emissora, que passará a ser só mais um panfleto de oba-oba do governo federal. 
 
Vou sentir saudades de Leda e lamento por sua saída da TV. A Brasil, ao contrário das empresas públicas, poderia se dar ao luxo de, não sendo regrada pelo Ibope ou pelos anunciantes que só bancam o varejão do entretenimento, manter em sua grade um programa de qualidade, que contribua para o aumento da cultura de seu público. Mas, isso seria num mundo ideal. No caos em que o país se encontra, qualquer jovenzinho sorridente repetindo as gírias da estação serve para substituir o "Com certeza" do ícone que Leda se tornou.
 
Ela disse que está "na pista". Faço votos que outra emissora nos brinde com seu retorno à televisão.
 
Cláudia Carvalho


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