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Boa noite, viu criança!
 
Fotografia de David Zingg
 
Eu quero muito agradecer por essa sua passagem aqui no planetinha.
 
Era tão bom te ver, chegando toda deslumbrante nos programas do Chacrinha ou Sílvio Santos. 
 
Aliás, aquilo não era uma chegada, era uma aparição.
 
Como a aparição de uma santa, cheia de estrelas à sua volta, você chegava com o barulho das trombetas, o alvoroço das entidades, a doçura das fadas.
 
Aquela bocona toda vermelha que era só pra dizer coisa carinhosa. 
 
Vou sentir muita falta sua, viu criança!
 
Um dia eu parei pra lhe ouvir.
 
Eu não sabia que você era tão discreta. 
 
Você tinha um tesouro de cultura e conhecimento, que mantinha sem alarde e sem vaidade.
 
Eu aprendi e me surpreendi tanto, quando além de ver, também pude lhe ouvir.
 
Você falava sobre as leis, sobre os reis, como o menino encantado de Ehden Abez.
 
Você falava sobre a vida, sobre a morte, sobre os bichos e sobre essa coisa inacabada que é ser gente.
 
Vou me sentir meio desamparado, viu criança!
 
Você era uma valquíria, uma semi deusa germânica, guerreira bolchevique, defensora dos fracos e oprimidos, uma mulher Maravilha. 
 
Nossa mulher Maravilha.
 
Você enfrentou os ditadores, os falsos profetas, os moralistas infratores. 
 
Você acolheu, com suas asas de lantejoulas, os errantes, os esquerdos e os que estavam pelo avesso. E lhes mostrou que estavam do lado direito. Do direito de ser quaisquer que fossem, desde que fossem eles mesmos. 
 
Como você mesma foi.
 
Boa noite, viu criança.
 
Espero mesmo que você tenha ido, como costumava dizer, brincar de outra coisa.
 
Eu, por enquanto, vou ficando por aqui, brincando da mesma coisa.
 
Mas preciso dizer que sem você, a brincadeira perde a graça.
 
Obrigado, viu criança, por tudo de bom que você me deu.



Nelson Barros
Nelson do Rêgo Barros é pernambucano de nascença, pessoense de coração. Chegou aqui no começo dos anos 70. Estudou no Santa Júlia, no Lyceu Paraibano e na UFPB. Foi estudante de medicina, de psicologia, vocalista de grupo musical, funcionário público. Hoje é psicoterapeuta. O trabalho e o amor são sua sustentação, sua vida. Agora inventou de escrever...


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